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Uma das maiores agências de publicidade do mundo “branqueou violações” da Arábia Saudita

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Xiitas a viver na Grécia manifestaram-se frente à embaixada saudita em Atenas após a execução de Nimr al-Nimr em janeiro

LOUISA GOULIAMAKI

Subsidiária americana da firma francesa Publicis Groupe apagou referências ao governo saudita no seu website após denúncias da ONG Reprieve, avança o “The Independent”

Uma subsidiária do Publicis Groupe, um conglomerado francês de media, publicidade e relações públicas que é dono de empresas e marcas como a famosa Saatchi & Saatchi, ajudou o governo saudita — seu cliente há mais de uma década — a branquear violações de direitos humanos cometidas pelo regime, ao disseminar um artigo de opinião em que o ministro dos Negócios Estrangeiros do reino, Adel bin Ahmed Al-Jubeir, deixava implícito que a execução em massa de opositores ao regime em janeiro foi um esforço no âmbito da guerra contra o terrorismo.

O artigo foi publicado logo a seguir às execuções de 47 pessoas num só mês, naquela que foi a maior onda de execuções em massa de opositores e críticos do reino em mais de 30 anos. Suspeita-se que, entre os executados, tenham estado pelo menos quatro menores de idade. Várias organizações não-governamentais estão atualmente a levar a cabo campanhas internacionais para impedir que outros três jovens — incluindo Ali al-Nimr, de 17 anos, que foi condenado à morte por participar numa manifestação pró-democracia — sejam igualmente executados por decapitação.

No artigo de opinião que a revista norte-americana "Newsweek" publicou, um mês depois da onda de execuções, Al-Jubeir defendia o que a comunidade internacional classifca de preocupantes e flagrantes violações de direitos humanos como medidas justificáveis no combate ao terrorismo. O reino, alegava o príncipe saudita e chefe da diplomacia do país nesse artigo, "prendeu extremistas nas suas fronteiras, julgou-os em tribunais especiais e impôs penas máximas aos que foram condenados". O artigo, intitulado "Os sauditas estão a lutar contra o terrorismo, não acreditem no contrário", foi distribuído pelo Qorvis MSLGroup, uma subsidiária da francesa Publicis que trabalha com a Arábia Saudita há mais de uma década, aponta o "The Independent". Esse artigo original continua disponível para consulta aqui.

No seu website, a agência de publicidade apresentava o seu trabalho com o reino saudita, elaborando que trabalha com o regime sunita em áreas como "relações com os media, publicidade, relações governamentais, ativismo e comunicações online". Mas assim que a sua participação no branqueamento de violações foi denunciada pela ONG britânica Reprieve, a secção dedicada à Arábia Saudita desapareceu desse site.

O "The Independent" diz ter visto a versão dessa secção guardada em memória cache, onde a agência de publicidade e relações públicas se congratulava pelo facto de o seu trabalho "ter efetivamente servido para reforçar a relação de 80 anos entre os povos e governos americano e saudita".

De acordo com o site "The Intercept", fundado pelo jornalista do "Washington Post" Glenn Greenwald, o regime saudita pôs fim às relações com a Qorvis após as execuções em massa levadas a cabo em janeiro. Entre os condenados à morte estava o líder religioso Nimr al-Nimr, com a sua morte a alargar a fissura nas relações entre a Arábia Saudita sunita e o Irão xiita.