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Não vamos fazer milagre

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Lula da Silva e Dilma Rousseff na campanha que viria a reeleger Dilma presidente, em agosto de 2014

NELSON ALMEIDA/AFP/Getty Images

Lula nasceu pobre, ficou no desemprego por se recusar trabalhar ao sábado, reergueu-se e conquistou o povo com afirmações diretas ao coração: “Não sei se vou poder fazer tudo que tenho na cabeça, mas podem estar certos de que vou começar fazendo o necessário, depois vamos fazer o possível, e depois até chegar no impossível”. Dilma nasceu com conforto, andou em boas escolas, envolveu-se na política, foi torturada e cedo impôs o seu estilo imperioso de mandar. “Não vamos fazer milagre”, disse Lula um dia - mas o Brasil chegou a acreditar que sim. E esse mesmo Brasil parece agora não acreditar em nada. A história incrível de Lula e Dilma

Luís M. Faria

Jornalista

"Sei que não posso falhar", disse Lula da Silva num comício em Fortaleza pouco antes de ser eleito presidente do Brasil em 2002. "Sei que não posso trair o sonho de milhões e milhões de brasileiros que estão juntos comigo. Qualquer outro presidente da República pode ser eleito e não fazer nada, que o povo já está acostumado, mas nós não temos esse direito, porque tem gente que carrega a nossa bandeira há 10, 20, 30 anos."

O sonho de que falava era evidentemente o de melhorar a vida e subir a condição dos pobres. Ele conhecia na pele o que estava em causa. Filho de agricultores analfabetos, começara a trabalhar ainda na infância. Vendeu laranjas, esteve numa tinturaria, engraxou sapatos... Aos 14 anos, quando pôde finalmente ter a sua carteira de trabalho, foi para uma siderurgia onde um torno lhe roubou um dedo. Mais tarde seria despedido de uma empresa por se recusar a trabalhar ao sábado, o que lhe valeu um longo período no desemprego.

Tornou-se sindicalista ainda nos anos 60, tendo estado preso várias vezes por causa disso. Em 1980, foi fundador do Partido dos Trabalhadores, um partido que reunia pessoas de grupos muito diferentes que tinham em comum a preocupação social. Eleito líder do PT, começou a concorrer a eleições, tornando-se deputado federal em 1986. O advento das eleições presidenciais diretas permitiu-lhe fazer a sua primeira tentativa nessa corrida, em 1989. Mais duas se seguiriam sem resultado, até ele ter finalmente sucesso em 2002.

Nessa altura, já moderara bastante a sua plataforma económica - a tal ponto que o próprio FMI viria a elogiá-lo quando ele começou a governar. Ainda no comício de Fortaleza, tinha avisado: "Não vamos fazer milagre. O país está metido numa dívida sem precedentes, está há oito anos sem ver a sua economia crescer. Não sei se vou poder fazer tudo que tenho na cabeça, mas podem estar certos de que vou começar fazendo o necessário, depois vamos fazer o possível, e depois até chegar no impossível".

Menina de classe média alta, depois revolucionária

FERNANDO BIZERRA JR. / EPA

Dilma Roussef, sua grande aliada, que lhe sucedeu no cargo em 2011, tem uma origem social bastante diferente. Filha de um empresário búlgaro comunista que emigrou para o Brasil por razões políticas, nasceu na classe média confortável. Andou em boas escolas, tendo o seu despertar politico acontecido na adolescência, após o golpe militar que instituiu a ditadura no Brasil. Dilma aderiu ao movimento estudantil de contestação, e depois ao partido comunista.

Pertencia à fação que defendia a luta armada, e parece que já então se notava a personalidade muito forte - o seu estilo imperioso de mandar, segundo alguns. Esteve presa entre 1970 e 1972, tendo sido torturada. Uma vez em liberdade, foi viver para o Rio Grande do Sul na companhia de um homem que seria seu companheiro durante três décadas. Envolveu-se na política municipal e estadual, contando-se entre os fundadores do Partido Democrático Trabalhista, que só abandonaria em 2001, após uma cisão, para ir integrar o Partido dos Trabalhadores.

Durante a campanha presidencial deste, teve responsabilidades na elaboração da política para o sector energético, e após a vitória tornou-se ministra das Minas e Energia. Uma pasta crucial, pois foi o petróleo, em especial durante o período em que o seu preço se manteve elevado, que permitiu ao governo desenvolver muitos dos seus programas sociais. A outro nível, também o papel central da Petrobrás nos escândalos atualmente em curso mostra a importância da companhia petrolífera nacional brasileira.

Dilma permaneceu no Ministério das Minas e Energia até 2005, quando o Mensalão (ver abaixo) obrigou à demissão do então chefe da Casal Civil do Presidente, José Dirceu. Dilma substituiu-o, e aí ficou até ser ela própria eleita para a presidência. Sucessora escolhida de Lula, prometia continuar as suas políticas, que eram extremamente populares. Mas a sua gestão económica seria bastante menos feliz.

Redução substancial da miséria

PAULO WHITAKER / REUTERS

Lula governou o país entre 2003 e 2011. O grande emblema desses anos, e a principal fonte da sua popularidade, chama-se Bolsa Família. É um programa especificamente destinado às camadas mais pobres da população. Criado pelo governo anterior mas muito expandido por Lula, assenta num sistema de transferências condicionadas. A troco de manterem as crianças na escola e cumprirem determinados cuidados de saúde, as famílias recebem verbas variáveis que, em média, andam pelos 176 reais (43 euros). Cerca de 14 milhões de famílias estão atualmente abrangidas, e estima-se que o programa tenha contribuído para uma redução de 75% nas situações de miséria extrema no Brasil.

Imitado pelo mundo fora, o Bolsa Família tem sido elogiado por instituições como o Banco Mundial, e só raras vozes o contestam. O mesmo não se pode dizer de outras posições tomadas por Lula, por exemplo em relação a países como Cuba, Venezuela e Irão, que ele sempre apoiou apesar das restrições aos direitos humanos que neles se verificam. A justificação óbvia eram as velhas (ou novas, falando de Hugo Chavez) fidelidades de esquerda, e a concomitante rejeição do imperialismo americano. Nada que ameaçasse a popularidade de alguém como Lula num país como o Brasil.

Já com os escândalos a história é outra. Em 2005 e 2006 houve um que levou o nome de Mensalão em referência àquilo de que se tratava – entregas de dinheiro, em muitos casos mensais, a deputados da oposição a troco de votos a favor do governo no Congresso brasileiro. Dezenas de pessoas seriam julgadas, incluindo o ex-ministro José Dirceu, condenado a 10 anos e a uma elevada multa. Lula conseguiu não ser pessoalmente atingido, e foi reeleito presidente. O facto de o Brasil estar então em alta, com uma situação económica que o tornava uma estrela entre os BRIC (Brasil, Rússia, Índia, China), terá contribuído para isso.

Um escândalo na pior altura

ADRIANO MACHADO / Reuters

Com o Lava Jato é muito pior. Por um lado, o preço do petróleo desceu a pique e o país está em recessão. Por outro, o dinheiro que circulou ilegalmente não visava objetivos políticos mas enriquecimento pessoal. Se for verdade o que a procuradoria alega, é corrupção pura e simples, e Lula encontra-se no centro. Ele e outros políticos teriam sido subornados para ajudar construtoras a conseguir contratos no estrangeiro. Teriam recebido bens cuja propriedade ocultaram e dinheiro que tentaram lavar. No caso de Lula, por exemplo, recebendo a título de remuneração por “palestras”, dadas literalmente a peso de ouro, além de um apartamento triplex de luxo e de um "sítio" que ele garante não serem dele, desmentindo a versão da procuradoria.

O governo está cercado, e cada vez é mais difícil entrever uma saída. Dilma diz que a nomeação de Lula para a Casa Civil - o mesmo posto que ela ocupou no tempo dele - é uma forma de revitalizar o executivo, mas muita gente acha que objetivo é evitar a prisão de Lula. Dilma também não está em posição fácil, pois há um processo de 'impeachment' a correr no Congresso. Instaurado pelo presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, aparentemente em retaliação pelas suas próprias dificuldades - acusado de corrupção e outros crimes, ele está em risco de ver o seu mandato cancelado - tem por base uma alegada falsificação das conta públicas por parte do governo. Mesmo antes de um eventual julgamento no Congresso, não é impossível que os protestos públicos já maciços, e que continuam a crescer, obriguem Dilma a demitir-se.

Ela tem força de carácter para resistir, se for de todo possível. Mas à desilusão geral já não escapa, a avaliar pelas sondagens que a põem de rastos. Alguns dos mais desiludidos, inevitavelmente, são os que mais esperavam dela e do seu aliado. Um exemplo típico é uma brasileira que nasceu e cresceu pobre antes de vir para Portugal e se tornar empresária. "Quando vi o que era, chorei", diz ela emocionada. "Lula era tudo para nós, era um deus. Ele não tinha o direito."

YASUYOSHI CHIBA/GETTY IMAGES