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Lula pediu a advogado que intercedesse por ele junto do procurador-geral da República

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ADRIANO MACHADO / Reuters

Luiz Carlos Sigmaringa Seixas, filho de antigo procurador-geral do Rio de Janeiro, defende conversa “correta” com o ex-Presidente do Brasil e acusa o juiz Sérgio Moro de “divulgação seletiva [de escutas] com propósitos eminentemente políticos

Numa das várias escutas ao telefone privado de Lula da Silva que foram tornadas públicas quarta-feira sob ordens do juiz Sérgio Moro, o ex-presidente brasileiro pede ao advogado Luiz Carlos Sigmaringa Seixas que fale com Rodrigo Janot, o procurador-geral da República, para discutir a investigação aberta contra ele no âmbito da operação Lava-Jato.

De acordo com a "Folha de São Paulo", citando o conteúdo da gravação áudio, Lula pede a Sigmaringa Seixas nessa conversa telefónica que diga a Janot que ele deseja doar todos os bens e itens ao Ministério Público. "Como ele aceitou um pedido de um cara lá de Manaus pra investigar as coisas que eu ganhei", dirá Lula na conversa, "pergunta pra ele se no Ministério Público tiver lugar eu mando tudo pra lá, pra eles tomarem conta, porque eu não tenho nenhum interesse em ficar com isso". Na mesma gravação, Lula também será ouvido a queixar-se das investigações aos pagamentos de empreiteiras integrados no esquema de desvio e lavagem de dinheiro.

"O favelado não pode me dar dinheiro pra guardar aquilo", diz de acordo com o mesmo jornal. "Quem pode me dar é os empresários. Eles estão criminalizando os empresários. A Dilma devia fazer uma medida provisória me dando dinheiro, não vai dar. Sabe, devia desocupar aquela porra de sede deles [da Procuradoria-Geral da República] com aquela quantidade de vidro fumé."

Segundo o jornal "Globo", citando o relatório compilado pela Polícia Federal com base nessa conversa de Lula com Sigmaringa Seixas, Lula queixa-se ao advogado do facto de Janot ter recusado quatro pedidos de investigação do senador Aécio Neves e de ter aceitado um único contra ele próprio.

“Em seguida, Lula sugere que Janot, como forma de gratidão por ter sido nomeado por ele, não poderia ter aceitado o pedido de investigação: ‘Essa é a gratidão...Essa é a gratidão dele por ele ser Procurador’”, escreve a equipa da Polícia Federal. Os investigadores dizem ainda que Sigmaringa Seixas sugere utilizar a imprensa para constranger Janot, ao que Lula responde: “Então conversa com o Cristiano”. A conversa termina aí.

O mesmo jornal refere que Rodrigo Janot está em viagem, pelo que ainda não foi localizado para comentar o conteúdo desta conversa. Sigmaringa Seixas, pelo contrário, já defendeu que o conteúdo da escuta mostra uma conversa "correta", ao sublinhar a Lula que qualquer reclamação ao procurador-geral deve ser formalmente dirigida através de uma petição. "É um absurdo inominável" levantar o sigilo das escutas que são objetos de investigação no âmbito do Lava Jato, criticou ainda o advogado, dizendo que esta decisão de Sérgio Moro mostra uma divulgação seletiva "com propósitos eminentemente políticos".

A revista "Veja" refere que esta abordagem de Lula a Sigmaringa Seixas aconteceu para evitar depoimentos forçados ou prisão, corroborando a versão do advogado sobre o teor da conversa rondar os procedimentos normais em situações destas. "Lula ligou para Sigmaringa e sugeriu uma conversa, informal, com Rodrigo Janot. Sigmaringa, por sua vez, diz que isso não adiantaria, que o melhor seria uma petição formal ao procurador-geral da República", escreve a revista.

No mesmo artigo com base na conversa telefónica, Lula é citado a dizer que "esse cara [Janot] se fosse formal não seria procurador-geral da República, teria tomado no cu, teria ficado em terceiro lugar (…) Quando eles precisam não tem formalidade, quando a gente precisa é cheio de formalidade". A declaração faz referência ao facto de o procurador-geral ter recusado quatro pedidos de investigação a Aécio Neves, candidato às presidenciais de 2014 pelo Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), que dirige e pelo qual é senador — que, segundo o delator Delcídio do Amaral, terá participado no mesmo esquema de corrupção, recebendo dinheiro de uma subsidirária da Eletrobras.