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John Kasich, o “candidato razoável”

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Jeff Swensen/ Getty Images

Estava grande parte de Portugal a dormir na noite de terça para quarta e na América um homem fazia-se notícia. John Kasich. Sabe quem é?

Luís M. Faria

Jornalista

Em 1970, um estudante universitário chamado John Richard Kasich enviou ao presidente Richard Nixon uma carta a elogiar as suas políticas e a dizer que gostava de se encontrar com ele. Como o jovem ia bem recomendado, o encontro acabou por ter lugar. Foi um primeiro momento simbólico na carreira precoce desse político conservador. O segundo foi quando ele se fez eleger para o senado estatal do Ohio aos 26 anos. Parece que nunca ninguém o conseguira tão cedo.

Quatro décadas e meia depois, Kasich é governador do Ohio e candidato a candidato presidencial americano. O seu percurso nas primárias republicanas não tem sido fácil. Embora seja de longe o mais experiente dos concorrentes, republicanos ou democratas, tem andado teimosamente pelo fundo das sondagens. Entre os republicanos, o claro favorito é Donald Trump, um candidato com aspetos que muita gente reprova. Atrás dele vem o senador Ted Cruz, do quem se diz que ainda é pior (entre outras coisas, prometeu bombardear o Médio Oriente até "a areia brilhar").

O principal rival dos dois era o senador Marco Rubio, que esta semana ficou pelo caminho após perder as primárias no seu próprio estado, a Florida. Em contrapartida, Kasich ganhou no seu - aconteceu na madruga desta terça para quarta-feira. Ao fazê-lo, impediu que Trump abocanhasse de vez a nomeação e deu novo fôlego ao establishment republicano, que não se conforma com a ideia de Trump como candidato oficial do partido. Se Kasich conseguir aguentar até à convenção em julho, pode dar tempo suficiente para negociar uma alternativa, seja ele próprio ou qualquer outro.

Jessica Kourkounis/ Getty Images

O conservadorismo moderado, menos dogmático que pragmático

Independentemente do eventual irrealismo dessa hipótese, Kasich tornou-se o candidato necessário, e não só para os republicanos. Jornais liberais como o “New York Times” falam dele com simpatia. Kasich representa uma versão razoável do conservadorismo, disposta ao compromisso e menos preocupada com ortodoxia ideológica do que em melhorar a vida das pessoas. Quando quase todos os republicanos tratam como artigo de fé a oposição absoluta ao Obamacare (a reforma do sistema de saúde promovida pelo atual presidente), ele aceitou uma parte essencial do programa, expandindo no seu estado o Medicaid - assistência médica aos pobres - com a ajuda de financiamento federal. Ainda por cima, justificou a sua decisão citando a Bíblia, o que deve ter contribuído para aumentar a raiva dos intransigentes.

Kasich também não exibe o mesmo zelo que eles noutras matérias. Recusa falar agressivamente contra os 11 milhões de migrantes ilegais no país. É contra o casamento gay, mas diz que a partir do momento em que o Supremo Tribunal o autorizou a lei do país é essa, e tem de ser cumprida. Na educação, aprova um conjunto de standards que muitos na sua área política rejeitam. O tema central da sua campanha não é nenhuma dessas questões sociais, mas a economia. E aí ele tem excelentes credenciais.

Jeff Swensen/ Getty Images

Reeleito por larga margem

No Ohio, onde é governador desde 2011, a situação fiscal passou de um défice de 8 mil milhões de dólares quando ele entrou para um superavit de 2 mil milhões no ano passado. Tudo isto acompanhado de um grande corte de impostos e um aumento do emprego. Não foi por acaso que o voltaram a escolher em 2014 por larga margem, ou que antes o tinham eleito para nove mandatos sucessivos como representante do estado no Congresso, entre 1993 e 2000. Kasich nunca esteve no governo, mas tem no seu currículo a longa participação em comités tão importantes como o da defesa e do orçamento. A este último chegou mesmo a presidir, e foi corresponsável pelas negociações com a administração Clinton que levaram ao primeiro orçamento federal não deficitário nos EUA desde os anos 60. Isso aconteceu em 1997, e permanece a maior realização da carreira política de Kasich.

Se ele chegar à convenção republicana ainda como candidato, terá conseguido outro feito notável. O que se passará a seguir, ninguém sabe. Mas esse filho de migrantes - ele checo, ela croata; ambos católicos - já será credor do agradecimento daqueles entre os seus pares que querem algo parecido com o Partido Republicano a que se habituaram. O paradoxo de Kasich é que, sendo ele o "candidato razoável", o único que não adota posições extremas em quase todos os assuntos, é também o único que pode salvar o referido partido. O tal que há muito deixou de se parecer com ele...

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