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Investigadores portugueses céticos sobre descoberta de nau de Vasco da Gama em Omã

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Omã anunciou a descoberta de uma nau portuguesa que estava incluída na armada do navegador português, mas a forma como foi feito o anúncio levanta algumas questões. São necessários “mais dados”, dizem os historiadores. A confirmar-se, será um achado "interessantíssimo" para a História, reconhecem

Investigadores e historiadores portugueses dizem-se céticos e prudentes em relação ao anúncio da descoberta de uma nau portuguesa naufragada numa ilha remota de Omã em 1503, admitindo, porém, que, a confirmar-se, será um achado "interessantíssimo" para a História.

Em declarações à agência Lusa, o historiador Jorge Semedo Matos e o arqueólogo subaquático Filipe Castro, põem em causa sobretudo a forma como foi feito o anúncio de uma descoberta que nem sequer contou com investigadores portugueses e que foi divulgada com "segredinhos" que, afirmam, "minam a credibilidade" do achado.

Na segunda-feira, o Ministério do Património e da Cultura de Omã anunciou a descoberta de uma nau portuguesa que fazia a carreira das Índias e que estava incluída na armada de Vasco da Gama, tornando-se a mais antiga embarcação dos Descobrimentos Portugueses encontrada e cientificamente investigada por arqueólogos.

No comunicado, o ministério omani salientou que o navio português naufragou em 1503 durante uma tempestade ao largo da ilha Al Hallaniyah, na região Dhofar, e que as escavações subaquáticas já feitas permitiram à empresa britânica Blue Water Recoveries Ltd. (BWR) recolher mais de 2.800 artefactos nos últimos três anos.

Indicando que "poderá ser" a nau "Esmeralda", tal como é referido no Jornal Internacional da Sociedade de Arqueologia Náutica, as autoridades de Omã dão conta de os artefactos encontrados irem ao encontro dessa ideia, pois o espólio tem a datação certa.

"Precisamos de mais dados"

A descoberta é fruto de uma colaboração entre as autoridades de Omã e a BWR, liderada por David Mearns, empresário e arqueólogo britânico cuja credibilidade é posta em causa por Filipe Castro, que o considera ser "parecido com caçador de tesouros".

"O secretismo que rodeou este projeto de muitos anos e o facto de Mearns parecer ser um caçador de tesouros fez-me pensar o pior. As conclusões do achado não indicam que se trata do local do naufrágio da «Esmeralda» (capitaneada por Vicente Sodré) ou da «S. Pedro» (por Brás Sodré, ambos tios de Vasco da Gama)", disse.

"Poderá ser. É uma hipótese plausível para trabalhar, que terá primeiro de ser analisada pelos historiadores. Precisamos de mais dados, uma vez que o relatório é preliminar. Vamos esperar por mais informação", sublinhou o professor catedrático de arqueologia náutica na Universidade A&M, no Texas, e diretor do Laboratório de Reconstrução de Navios (ShipLAB) J. Richard Steffy.

"Não se percebem os segredinhos, não há investigadores portugueses e o artigo deveria ter um mapa menos rudimentar. Mais, o artigo não está à altura da importância do achado. Daí a credibilidade poder ser posta em causa", sublinhou Filipe Castro, admitindo, contudo, que o espólio já recolhido é "muito interessante".

Por seu lado, o historiador português Jorge Semedo Matos considera que o achado é "interessante", defendendo, todavia, "alguma prudência" para se afirmar que o navio naufragado é a nau "Esmeralda".

"Contesto diretamente algumas das deduções feitas no artigo. Parece-me ser um estar a ler o que gostavam que lá estivesse e que favorece a espetacularidade do achado. Mas aguardo. O artigo, a meu ver, está cheio de conclusões rápidas e convenientes", defendeu.

A título de esclarecimento, Jorge Matos referiu que a "Armada de Vasco da Gama" costuma identificar a primeira vez que o navegador português chegou à Índia, em 1498, e que a nau "Esmeralda", de Vicente Sodré, e a "S. Pedro", de Brás Sodré, naufragaram quatro anos depois, na sequência da terceira expedição.