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Há britânicas “a usar meias e jornais” porque não têm dinheiro para tampões

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"Nenhum imposto sobre o meu útero", lê-se no cartaz de uma manifestante em Paris

JACQUES DEMARTHON

Alerta foi feito pelo banco alimentar do Exército da Salvação em Darlington, no nordeste de Inglaterra. Alternativas caseiras a tampões e pensos higiénicos põem em risco saúde sexual e reprodutiva das mulheres e já estão a fazer disparar número de infeções vaginais e urinárias

Os impostos altos sobre tampões e pensos higiénicos no Reino Unido, aliados à perda generalizada de poder de compra provocada pela crise e consequente austeridade, estão a levar dezenas de mulheres a usar jornais, meias velhas e lencinhos de pano durante a menstrução porque não têm dinheiro para comprar produtos higiénicos.

O alerta foi dado por membros do banco alimentar do Exército de Salvação de Darlington, no nordeste de Inglaterra, ao jornal local "The Pool", com o gestor desse banco alimentar a dizer que muitas mulheres têm vergonha de pedir ajuda. A denúncia surgiu em vésperas do debate sobre o Orçamento do Estado britânico para 2016, que acontece esta quarta-feira e que, segundo o "The Guardian", vai traduzir-se em mais medidas de austeridade.

O grupo caridoso internacional ligado à Igreja Evangélica já lançou uma campanha para oferecer produtos sanitários gratuitos às mulheres que não têm como comprá-los, e para chamar a atenção para os riscos de saúde que o sexo feminino enfrenta quando não tem acesso a produtos básicos de higiene. O "The Independent" nota que essa falta de acesso está a levar ao aumento de infeções vaginais e do trato urinário, com dezenas de mulheres já hospitalizadas por esse motivo. Em última instância, este tipo de infeções pode conduzir a infertilidade e a outros problemas graves de saúde do foro sexual e reprodutivo.

"Nenhuma mulher devia encontrar-se nesta situação nem ter de implorar por um tampão", condena Colin Bradshaw, que gere o banco alimentar do condado de Durham, dizendo-se "chocado que isto esteja a acontecer na Grã-Bretanha do século XXI".

A questão dos impostos sobre produtos higiénicos femininos ganhou destaque mediático em outubro do ano passado, quando o Parlamento britânico votou contra a isenção de taxas que tinha sido proposta pela deputada do Partido Trabalhista Paula Sherriff. “Francamente, o IVA nos tampões é o imposto acrescentado da vagina. É uma taxa exclusiva das mulheres”, declarou na altura, condenando o resultado dessa votação. Outras figuras da sociedade britânica, incluindo Julia Hartley-Brewer do "Telegraph", falaram numa campanha "disparatada" — uma que se alastrou também a França, onde dezenas de mulheres levaram a cabo protestos com o mesmo objetivo.

A par desses esforços para pôr fim aos impostos, uma outra campanha, chamada "Homeless Period", foi lançada por essa altura para exigir ao governo britânico que forneça produtos higiénicos de forma gratuita a mulheres sem-abrigo, à semelhança do que já é feito com preservativos.

Perante a situação vergonhosa em Darlington, o Exército de Salvação lançou agora uma nova campanha, "Begging for a Tampon", para aumentar a pressão sobre o governo britânico. Bradshaw diz que, no âmbito desses esforços, já contactou 191 deputadas britânicas e que apenas três lhe responderam até agora — sem referir se também contactou deputados do sexo masculino para se juntarem à causa.