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Alex Anderson à presidência dos EUA. Ou talvez não

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Um italiano, escritor nas horas vagas, inventou nas redes sociais um candidato republicano, assumido concorrente de Donald Trump. Entusiasmou-se com a campanha, somou milhares de apoiantes, recebeu convites e quiseram enviar-lhe donativos. A farsa durou oito meses. E só terminou porque o seu criador, Alessandro Nardone, assim decidiu

À margem da luta pré-eleitoral nos Estados Unidos, disputada por republicanos e democratas por um lugar na corrida à Casa Branca, um candidato passou despercebido aos media e falhou os debates mais importantes. Sinal dos tempos, não escapou, porém, às redes sociais, essa plataforma de notoriedade fácil, que valeu a Alex Anderson qualquer coisa como 26.400 seguidores no Twitter.

Trata-se de uma campanha à parte, que acumula o “pormenor” de ser falsa. Alex Anderson é na realidade Alessandro Nardone, um italiano - tal como o nome faz adivinhar - residente em Campione, no seu país natal, e com a profissão de consultor de marketing, além de escritor nas horas vagas.

A farsa durou oito meses e foi cumprida com todo o rigor, mesmo que inicialmente a coisa tenha começado como uma graça, pensada para desenvolver um personagem para o seu próximmo livro.

Surpreendido com o facto de tanta gente estar a levar a sério o bem-apessoado candidato presidencial, apresentado como um congressista da Califórnia e republicano a concorrer contra Donald Trump, Nardone passou a alimentar a mentira.

A mulher dizia-lhe que era louco, mas o italiano, de 39 anos, assumiu uma vida dupla, qual super-herói. “Quando a minha mulher e a minha filha se iam deitar, à hora em que a América começava a acordar, sentava-me ao computador e passava a viver a vida de Alex Anderson“.

Assim nasceram slogans, que se estenderam a cartazes eleitorais impressos de verdade e até um vídeo convincentemente gravado num café da esquina, supostamente em Los Angeles e com igualmente supostos apoiantes (vizinhos colaborantes), onde aparecia o seu diretor de campanha... os amigos também são para estas coisas.

Entre convites para participar em programas de rádio, debates e entrevistas - vindos dos Estados Unidos, é bom sublinhar -, Anderson foi conquistando seguidores ou, pelo menos, curiosos ocasionais - somaram 200 mil os internautas que clicaram nos seus ‘posts’ pelo menos uma vez.

Sucederam-se mensagens, ofertas de donativos - que Nardone foi recusando (ainda que tenha vendido artigos de merchandise) - até ao dia em que achou por bem contar a verdade. Não que tenha intenções de abandonar os fãs. O italiano promete continuar a alimentar a grande rede, em nome da experiência sócio-política em que a sua iniciativa se transformou, mas considera que é tempo de desmontar a ficção.

É certo que não enganou todos, nomeadamente dois jornalistas de Washington que perceberam não estar perante um candidato genuíno e até se ofereceram para o aconselhar quanto à maneira de parecer ainda mais credível, mas é impressionante o número dos que “caíram como patinhos”.

“Se me foi possível gerir uma campanha falsa a partir de Itália, convencendo milhares de norte-americanos a votar em alguém que não existia, qualquer pessoa o consegue fazer. Como saber se Donald Trump não está apenas a fingir para uma nova série televisiva, para competir com “House of Cards”, por exemplo?“, pergunta o falso candidato, citado pela “BBC News”.