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Trump vai encerrar a corrida republicana hoje? E outras dúvidas sobre as primárias desta terça-feira

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Joe Raedle/ Getty Images

Esta noite os eleitores da Florida, Illinois, Missouri, Carolina do Norte e Ohio vão a votos, a par do caucus republicano no território livremente associado das Marianas Setentrionais. Magnata populista continua a liderar corrida à nomeação do Partido Republicano mas precisa de garantir vitórias tanto na Florida como no Ohio para se aproximar de uma maioria qualificada de delegados. Isso poderá não acontecer

Esta noite estão em jogo 367 delegados eleitorais entre os quatro candidatos que ainda disputam a nomeação republicana. Cinco estados e um território autónomo dos Estados Unidos vão a votos em primárias republicanas e democratas (à exceção das Marianas Setentrionais, onde Hillary Clinton venceu o caucus democrata no sábado) em mais uma etapa decisora na corrida às presidenciais de novembro.

Donald Trump, que acumula o maior número de delegados desde o início do processo de primárias em fevereiro, está em rota para vencer na Florida, o estado que, a par do Ohio, é dos poucos onde o total de delegados em disputa (99 no primeiro, 66 no segundo) é atribuído ao primeiro classificado na votação. Essa é a principal característica que torna as votações desta terça-feira à noite tão importantes. E fora do universo abstrato de primárias norte-americanas, o dia de hoje é ainda mais importante: Trump ainda não garantiu um mínimo de delegados suficientes para ser o vencedor declarado da corrida republicana e hoje pode ficar ainda mais longe dessa aspiração.

Corrida republicana chega hoje ao fim?

É possível que não e uma maioria dentro e fora do Partido Republicano está a rezar para que assim não seja. Apesar das consecutivas vitórias do magnata populista ao longo da corrida republicana, Trump ainda só angariou 43% do total de delegados que já estiveram em disputa desde fevereiro. Para comparação, em vésperas das primárias na Florida e no Ohio em 2012, Mitt Romney, o candidato que viria a garantir a nomeação republicana para disputar a Casa Branca com Barack Obama, já tinha garantidos 56% dos delegados — tornando-e, em meados de abril, no presumível candidato do partido conservador e assegurando, em finais de maio, a maioria de delegados necessária para chegar à Convenção Nacional de julho sem sombra de dúvida de que seria o candidato republicano à presidência dos EUA.

Este não é o caso com Trump e ele sabe-o. Na quinta-feira passada, em mais um debate com os rivais Ted Cruz, Marco Rubio e John Kasich, o milionário declarou que o candidato que tiver mais votos deve ser o nomeado do partido mesmo que não consiga o mínimo de 1237 delegados antes do encontro nacional do partido no verão. E perante sondagens divulgadas este fim-de-semana, que antecipam uma vitória de Kasich no Ohio depois de ter subido ao pódio nas primárias do Michigan, Trump cancelou um comício de campanha na Florida para ir jogar as fichas todas nesse estado.

Só nove dos 50 estados e do punhado de territórios autónomos dos EUA atribuem delegados republicanos em sistema 'winner-takes-all' e três deles vão a votos esta noite (a juntar aos 99 delegados republicanos da Florida e aos 66 do Ohio estão os 9 em disputa nas Marianas Setentrionais). Até agora, e daqui em diante, a maioria das votações em primárias e caucus republicanos atribuem delegados até a candidatos derrotados, distribuindo proporcionalmente os votos depositados nas urnas pelos eleitores.

De olhos postos no Ohio

A Florida costuma ser um dos estados que mais atenção recebe durante o processo de primárias dos dois partidos norte-americanos. Representa 99 delegados que são atribuídos ao candidato que fica em primeiro lugar na votação, dínamo de qualquer candidatura. Mas este ano nada é como costumava ser e isso aplica-se também às votações de hoje, uma nova superterça-feira dos republicanos.

Hoje, é o Ohio e não a Florida o protagonista das votações republicanas e a alteração de planos de Trump, abandonando a Florida para fazer campanha lá, é prova irrefutável disso. Na semana passada, antes da voração no Michigan, vários membros do Partido Republicano que continuam a tentar impedir a nomeação de Trump tinham já declarado que o Michigan podia inaugurar uma "nova fase" da corrida se John Kasich conseguisse uma boa colocação.

Consegui-lo, como de facto conseguiu, era garantia quase incontornável de que ia emergir como a alternativa viável a Trump, alegam os republicanos. Isto porque Kasich é governador do Ohio, onde desde 2010 a população já lhe deu dois mandatos consecutivos e onde, segundo um inquérito de opinião da Marist divulgado domingo, deverá ser outra vez entronado esta terça-feira. De acordo com a sondagem, Kasich angaria 39% das intenções de voto, seguido de Trump com 33%, do senador Ted Cruz com 19% e de Rubio com apenas 6% (segundo a mesma sondagem, o senador da Florida deverá perder o seu estado-natal para Trump esta noite).

A confirmarem-se as previsões, o governador chamará a si 99 delegados a juntar aos 63 que já tem. O número da sorte — 162 — não fará com que ultrapasse nenhum dos três rivais: atualmente, Rubio tem 163 delegados, Cruz 369 e Trump 460. Mas fará, isso sim, com que o total de delegados em disputa fique ainda mais dividido, o que, em última instância, rouba a Trump o mínimo necessário de delegados para obter a nomeação — e reforça a hipótese de uma 'brokered convention' em julho.

Pode parecer pouco, mas as tentativas de evitar um Trump presidente já se esmiuçam dígito a dígito. Estas contas de somar e subtrair são tão importantes — e a sede de travar a candidatura do populista xenófobo tão grande — que nos últimos dias a campanha de Marco Rubio tem pedido aos seus apoiantes que votem em Kasich no Ohio. No final da semana passada, a "Salon" referia que Rubio, "em tempos tido como o salvador do Partido Republicano, resignou-se efetivamente a ser o 'spoiler' da corrida do Grand Old Party" — leia-se, perante as sucessivas derrotas do senador, e agora com as elevadas suspeitas de que não conseguirá sequer ganhar no seu estado da Florida, Rubio está a usar tudo o que tem para arruinar as chances de Trump. Esta noite veremos se isso trará os resultados desejados.

Contas baralhadas também no lado democrata

Os mesmos cinco estados que vão a votos em primárias republicanas escolhem esta noite entre Hillary Clinton e Bernie Sanders do lado democrata. A ex-secretária de Estado continua a liderar em número de votos e de delegados eleitorais desde o tiro de partida ouvido no Iowa a 1 de fevereiro. Mas depois da vitória surpreendente do senador do Vermont no Michigan, a corrida tornou-se mais complexa e interessante.

Neste momento, Clinton tem 767 delegados eleitorais contra os 553 que Sanders já firmou, o que significa que se o senador conseguir uma nova vitória estrondosa num dos estados que mais delegados representam poderá aproximar-se perigosamente daquela que, até ao início do ano, protagonizava a "crónica de uma nomeação anunciada". Aqui as contas são um pouco mais complexas do que do lado republicano, já que nesse total de delegados estão incluídos os chamados superdelegados — os homens e mulheres que têm disciplina de voto na Convenção Nacional Democrata de julho, de onde sairá o candidato democrata à Casa Branca. Desse ponto de vista, Clinton continua à frente a léguas de distância do rival que se autoproclama um socialista (tem, neste momento, 467 superdelegados contra os 26 de Sanders).

A tal "crónica de uma nomeação anunciada" tem vindo a ser rescrita à medida que Sanders vai ganhando terreno e atestando a sua capacidade de arriscar a nomeação de Clinton a cada votação. Isso tornou-se ainda mais óbvio na semana passada, quando contra todas as previsões de sondagens, analistas e da própria Clinton, Sanders venceu no Michigan. Essa vitória, que contrariou as previsões de 25% ou mais de avanço previstos para Clinton no estado, alumiou as esperanças dos apoiantes de Sanders, por antever a possibilidade de novas vitórias-chave do senador em estados com mapas demográficos semelhantes ao do Michigan.

Parte do eleitorado democrata e restantes apoiantes de Sanders deseja que a vitória no coração da cintura industrial dos EUA tenha sido não um feliz mas breve acaso, antes o início de uma tendência que lhe traga vitórias esta noite, em particular no Ohio e no Illinois, e nas próximas paragens.

Para garantir a nomeação democrata, um candidato precisa de um mínimo de 2383 delegados eleitorais. Estão em jogo esta noite para Clinton e Sanders 246 delegados na Florida, 182 no Illinois, 52 no Missouri, 121 na Carolina do Norte e 159 no Ohio — um total de 792. É, segundo o "Politico", a "grande hipótese de Bernie Sanders abalar a corrida" e alterar o seu rumo.

De acordo com as últimas sondagens de intenção de voto para os cinco estados, Clinton é a presumível vencedora em todos, com apenas uma sondagem a antever um empate técnico entre os dois candidados no Missouri.