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Cardeal francês nega ter ocultado qualquer ato de pedofilia

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ERIC CABANIS / Getty

O primeiro-ministro francês pediu ao cardeal Barbarin que “assuma a responsabilidade”, depois de uma queixa apresentada por uma associação de vítimas de pedófilia, mas o arcebispo de Lyon garantiu que a maioria dos factos tinha prescrito juridicamente quando chegaram ao seu conhecimento

O cardeal Philippe Barbarin afirmou esta terça-feira em Lourdes (sudoeste de França) que "nunca ocultou o menor ato de pedofilia", em relação às alegadas agressões sexuais cometidas por dois padres da diocese de Lyon (centro-leste).

"Quero dizer com a maior firmeza que nunca, nunca, nunca ocultei o menor ato de pedofilia", afirmou o arcebispo de Lyon, numa conferência de imprensa à margem de uma assembleia de bispos, na sequência de declarações do primeiro-ministro francês.

O cardeal Philippe Barbarin sublinhou que a maioria dos factos tinha prescrito juridicamente quando chegaram ao seu conhecimento.

"Sobre os factos atuais, eu sei o que é preciso fazer (...) Mas o que se deve fazer em todos estes casos antigos", questionou o cardeal, na conferência de imprensa em Lourdes, onde os 120 bispos de França estão reunidos para a assembleia da primavera.

"Talvez seja preciso dizer que, mesmo em caso de prescrição jurídica do direito francês, do ponto de vista pastoral isso não basta. Talvez este seja um ponto em que precisamos de progredir", acrescentou.

Esta manhã, Manuel Valls pediu ao cardeal Barbarin que "assuma a responsabilidade", depois de uma queixa apresentada por uma associação de vítimas por não-denúncia à justiça das ações passadas de um padre pedófilo.

"A única mensagem que quero transmitir, sem tomar o seu lugar, sem me substituir à Igreja de França, sem tomar o lugar dos juízes, uma vez que foi aberto um inquérito, é que assuma a sua responsabilidade. Cabe-lhe assumir a responsabilidade, falar e agir", afirmou Valls à rádio RMC, numa referência ao arcebispo de Lyon.

Depois da acusação formal do padre Bernard Preynat por agressões pedófilas entre 1986 e 1991, algumas das vítimas apresentaram queixas contra vários responsáveis da Igreja, incluindo Barbarin, por "não-denúncia" dos factos. O padre Preynat desempenhou as suas funções até agosto do ano passado, tendo sido acusado a 27 de janeiro depois de ter reconhecido os factos.

Barbarin reconheceu ter sido informado em 2007 das agressões de Preynat. O arcebispo de Lyon é também visado num segundo caso.

Um homem, que acusou um outro padre de agressões na década de 1990, garantiu ter informado Philippe Barbarin em 2009, sem que o cardeal tenha recorrido à justiça. A vítima apresentou nova queixa contra o prelado.

Sem visar diretamente Barbarin, a justiça francesa abriu dois inquéritos preliminares na sequência das queixas apresentadas: uma por "não-denúncia" e "perigo para a vida de terceiros", a segunda ainda sem motivo.

O cardeal pediu, em comunicado, que "sejam respeitados os seus direitos, a sua honra e a presunção de inocência".

"Eu respeito a presunção de inocência. Não sou juiz, sou chefe do governo, tenho atenção a todas as palavras que quero pronunciar, mas um homem da Igreja, cardeal, primaz das Gálias, que tem uma influência moral, intelectual, que exerce uma responsabilidade maior na nossa sociedade, deve compreender a dor", insistiu o primeiro-ministro.

"Se este caso implicasse - e implicou - diretores de escola, eleitos, que não assumissem as suas responsabilidades em relação a animadores ou professores em direto contacto com os jovens, o que teríamos dito? Teríamos sido impiedosos", considerou Valls.

A Igreja francesa tem atuado nos casos de pedofilia, sobretudo desde a condenação em 2001 do bispo Pierre Pican a três meses de prisão com pena suspensa por "não-denúncia" das violações de menores cometidas por um padre da sua diocese.

Na semana passada, Charles Scicluna, antigo responsável da justiça no Vaticano, garantiu que atualmente já não é possível transferir um padre acusado de pedofilia para outra paróquia.

Até aqui, Barbarin teve o apoio dos seus pares, que considerou a sua gestão destes processos rigorosa.

O Vaticano afirmou que o cardeal geriu este dossiê "com muita responsabilidade", sublinhando que Barbarin "estava perante uma situação que remontava há vários anos".