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A história daqueles que só por um acaso não morreram domingo na Costa do Marfim

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LEGNAN KOULA/EPA

Uma turista belga fala do milagre da filha bebé não ter chorado, durante as horas que permaneceram escondidas numa casa de banho, enquanto ouviam os tiros em redor. Houve também quem tenha assistido ao assassinato de uma criança mesmo à sua frente e quem viu o amigo com que se encontrava a levar um tiro na cabeça

Durante duas horas ou três horas, Charline Burton, uma turista belga de 32 anos, permaneceu escondida numa casa de banho com a filha bebé, enquanto ouvia os atiradores a percorrerem os quartos em redor. “Nós podíamos ouvir os tiros e podíamos perceber desse modo que eles estavam a ir para um local mesmo ao lado de onde nos encontrávamos”, relatou à BBC esta sobrevivente dos atentados levados a cabo por radicais islâmicos domingo em Grand Bassam, estância de turismo balnear da Costa do Marfim.

Quando os atacantes começaram a disparar, ela e o marido só tiveram tempo de pegar cada um em uma das suas duas filhas e começarem a correr. “Nós começámos a fugir e eu perdi-me do meu marido (…) Eu estava completamente perdida e não sabia o que fazer (…) Estava com a minha bebé. Entrei numa casa de banho onde fiquei uma duas ou três horas (…) Foi um milagre a bebé não ter chorado”, descreveu.

O francês Charles-Philippe d'Orleans encontrava-se com um amigo na praia quando ouviu o primeiro tiro. Pensou tratar-se de um foguete, até ter ocorrido um segundo disparo mais forte. Um dos seguranças disse então aos turistas para não se preocuparem, afirmando tratar-se apenas de alguns jovens que tinham tentado entrar na praia de acesso restrito, o que levara um guarda a disparar para o ar. Em seguida, o tiroteio começou e o turista francês escondeu-se com outras pessoas atrás de uma parede com atiradores “à direita, à esquerda, no caminho para a estrada e para a praia”, recordou em declarações à RTL. Ele e o amigo aproveitaram depois um momento de diminuição de intensidade dos tiroteios para fugirem do local num carro. “Depois disso dissemos: 'Bolas, escapámos de algo grande’”, comentou.

Marcel Guy disse que viu um atirador aproximar-se de duas crianças e a falar-lhes em árabe. Uma delas ajoelhou-se e começou a rezar e foi poupada, ao contrário da outra. “O rapaz cristão foi alvejado e morto mesmo à minha frente”, descreveu à agência Associated Press.

“Foi verdadeiramente terrível”, disse a chorar uma mulher, que falou à agência Reuters. “Nós nunca pensámos que isto poderia acontecer deste modo. Não é fácil. Não é fácil”, acrescentou.

Outro sobrevivente disse à Reuters que viu o amigo com que se encontrava a ser morto.:“Ele (o atirador) chegou junto do meu amigo que se encontrava ao telefone deu-lhe um tiro na cabeça”.

No total dezasseis pessoas foram mortas, 14 civis e dois elementos das forças especiais, nos ataques levados a cabo em Grand Bassam por seis homens armados com espingardas e granadas que foram eliminados, tendo se registado ainda 22 feridos, 19 dos quais civis e três elementos das forças especiais.

“Estes ataques terroristas podem acontecer em qualquer lugar, em qualquer momento”, afirmou o Presidente da Costa do Marfim Alassane Ouattar, procurando relativizar o impacto do sucedido, após ter visitado no domingo um dos três hotéis atacados “Nós mostrámos que temos a capacidade para conter os danos”, acrescentou.

Reivindicado pela Al-Qaeda para o Magrebe Islâmico o atentado de domingo na estância balnear Grand-Bassam, situada a cerca de 40 quilómetros da antiga capital do país, Abidjan, é o terceiro grande ataque a um local de turismo na África ocidental desde novembro. É contudo o primeiro a ocorrer na Costa do Marfim desde 2011.