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A América (e o mundo) à espera de Trump. E de uma Hillary que aguente...

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JEWEL SAMAD/ Getty Images

Há mais uma superterça-feira na América. Tudo pode ficar decidido - ou não. Um ano realmente invulgar

Luís M. Faria

Jornalista

Hoje é outra vez Superterça-feira nos Estados Unidos. Nas primárias para a presidência, votam cinco estados e o território das Ilhas Marianas. Os dois maiores são a Florida, onde Donald Trump é largamente favorito entre os republicanos, e o Ohio, onde ele está empatado com o senador John Kasich, que não tem hipóteses no resto do país. Pelo lado democrata, Hillary Clinton deve confirmar a sua posição dominante. Mas é possível que esta noite nenhum dos dois seja confirmado em definitivo como o candidato do seu partido.

Trump obteve até agora 43 por cento dos delegados eleitorais, o que o coloca muito à frente dos seus rivais, que dificilmente ainda terão forma ou tempo para compensar a sua desvantagem em relação ao empresário. Uma parte do mundo tem-se mostrado assustada com a possibilidade de ele se tornar o candidato presidencial do Partido Republicano. Em princípio, se Hillary for a candidata democrata e as sondagens se mantiverem como até agora, Trump perderá a eleição em novembro. Mas não é garantido.

Numas eleições nunca nada é garantido, e Hillary tem alguns handicaps consideráveis. Não está 100 por cento excluído que o FBI a acuse formalmente de ter guardado material classificado num servidor privado quando era Secretária de Estado. Uma acusação criminal destruir-lhe-ia instantaneamente a campanha. Mesmo sem isso (a hipótese, apesar de tudo, é pouco provável) ela tem andado a cometer erros que dificilmente se justificam numa política tão experiente.

Hillary Clinton numa ação eleitoral na última segunda-feira

Hillary Clinton numa ação eleitoral na última segunda-feira

CARLOS BARRIA/Reuters

Há dias, no funeral de Nancy Reagan, Hillary deixou-se fotografar abraçada ao ex-presidente George W. Bush. Claro que não há mal nenhum em ser afetiva com outras pessoas, mesmo políticos de inclinação oposta (o nosso atual PR que o diga). Mas Bush representa para muitos 'liberais' aquilo que de pior os republicanos têm - a agressividade gratuita, as guerras irresponsáveis, a nulidade/desonestidade intelectual, a promoção da injustiça económica, a devastação ambiental...

Para uma candidata cujo rival neste momento é um velho senador de esquerda que leva atrás de si multidões de jovens para quem a sua mensagem anti desigualdade tem um eco especial, parece uma atitude suicida. E quando Hillary, como se isso não bastasse, ainda elogia Nancy Reagan por ter falado publicamente da SIDA numa altura em que ninguém falava, então não se compreende de todo.

Os Reagan, Ronald e Nancy, ignoraram a SIDA durante anos. Numa altura em que a doença já tinha morto milhares de americanos, o presidente mantinha-se silencioso. Só quando as críticas a isso se tornaram impossíveis de ignorar é que ele fez a primeira referência ao assunto. Mesmo aí, não se demarcou dos pregadores religiosos, seus aliados políticos, que viam a doença como um justo castigo para a depravação sexual das vítimas.

A SIDA na altura era vista como essencialmente uma doença dos gays, e nem o facto de figuras proeminentes nessa categoria serem atores - portanto, antigos colegas de profissão dos Reagan - parecia comover o casal presidencial. Quando o velho amigo de Nancy, Rock Hudson, a três semanas de morrer lhe enviou uma mensagem a pedir que o ajudasse a ser internado num hospital militar, ela nem sequer lhe respondeu.

Hillary Clinton no funeral de Nancy Reagan na passada sexta-feira

Hillary Clinton no funeral de Nancy Reagan na passada sexta-feira

David McNew/ Gety Images

Os silêncios dos Reagan podem ter tido melhores ou piores razões. Mas são informação conhecida por qualquer americano com um mínimo de familiaridade com os problemas sociais da época. Como o são os debates em torno do 'welfare', o sistema de apoio aos pobres, que o presidente Bill Clinton reformou no sentido de o encolher drasticamente; ou o movimento para desregular o sistema financeiro, que o mesmo Clinton levou a um ponto que poderá ter tornado possível as crises financeiras que se seguiram, nomeadamente a de 2008.

O cidadão comum pagou essas crises com muito dinheiro e sofrimento, mas os Clinton extraíram lucros fabulosos da sua conexão a Wall Street. Só em discursos, terão recebido mais de 150 milhões de dólares após deixarem a Casa Branca. O tema entrou na campanha democrata quando Sanders começou a interpelar Hillary para tornar públicos os textos dos discursos que fez em eventos organizados pela Goldman Sachs e outras instituições financeiras. Até ao momento ela tem recusado.

Ligações como essas arriscam torná-la uma candidata de ontem, numa fase em que muitos votantes desiludidos com as suas expetativas de vida exigem uma política nova. Ela já tem o cadastro que tem. Além das questões económicas, há o seu voto a favor da guerra do Iraque quando era senadora, ou a sua insistência junto de Obama para que os EUA interviessem na guerra civil da Líbia, ajudando a derrubar Khadafy, ou as suas evasivas numa variedade de assuntos pessoais e profissionais em que as suas decisões foram polémicas.

Hillary chegou a ser filmada a rejubilar quando recebe a notícia da morte do líder líbio. "Chegámos, vimos, ele morreu", diz sorrindo. Quando se pensa no caos que daí resultou, na guerra civil que não pára, no terrorismo a alastrar, nos milhares de emigrantes que agora vêm da Líbia para a Europa... Se ainda por cima ela mostra não ter bem a noção das coisas - ela tentou dizer que cometera um lapso sobre Nancy Reagan, antes de apresentar uma desculpa mais categórica - desaparece o argumento central a favor de uma presidência sua: o do profissionalismo. E quem não quer Trump na Casa Branca começa a tremer.

Convicções autoritárias

Contra Hillary, o que oferece ele? Desde logo, independência. Isto é uma coisa que os seus apoiantes referem sempre. Ao contrário dos seus rivais republicanos e de Hillary Clinton, ele não precisa de andar a mendigar junto de milionários e bilionários. Sendo ele próprio um deles, tem meios para pagar a sua própria campanha. E num país que idolatra a riqueza, a sua fortuna pessoal dá-lhe credibilidade política. Ele é alguém que triunfou, e que pode ajudar a América a triunfar novamente. A voltar a ser grande, como diz o seu slogan de campanha ("Make America Great Again").

A pose autoritária de Trump também atrai muita gente. Não é por acaso, ou só por temperamento, que ele promete torturar terroristas e matar as famílias deles como forma de os dissuadir. Se o ano passado foi criticado por reconhecer que admira Vladimir Putin - ele defende o seu país, ao contrário do que faz Obama, disse Trump - já em 1990 aprovava o massacre de Tiananmen, por ser uma demonstração de que às vezes as crises de Estados exigiam soluções duras. Trump aplaude os seus apoiantes quando agridem pessoas que vão aos seus comícios protestar - ele chega a prometer que lhes pagará eventuais despesas judiciais em que possam incorrer.

Isto já foi considerado por alguns responsáveis da polícia um incitamento à violência, mas Trump não se demove. De resto, tem o cuidado de dizer sempre que quem provocou a situação foram os manifestantes. Há dias, acusou a campanha de Bernie Sanders de os ter enviado, e ameaçou retaliar fazendo o mesmo nos comícios dele. Sanders negou a acusação e chamou-lhe "mentiroso patológico", o que terá sido, de certa forma, um triunfo para Trump, pois mostrou que consegue fazer outros políticos descer ao nível de insulto que ele pratica diariamente.

Trump num discurso na última segunda-feira, na Flórida

Trump num discurso na última segunda-feira, na Flórida

Brian Blanco/Getty Images

O apelo de Trump inclui componentes de tipo diferente, embora afins. As suas referências à natureza criminosa dos mexicanos ou dos muçulmanos relevam do mesmo racismo mal disfarçado que a sua campanha de há uns anos para mostrar que Obama era um presidente ilegítimo, pois teria nascido... no Quénia. Os seus ataques à correção política também vão no mesmo sentido, pois defendem a liberdade para falar das minorias ou das mulheres como se quiser. Mesmo que isso implique dizer, por exemplo, que elas são agressivas porque estão com o período, como Trump sugeriu em relação a uma jornalista da Fox que lhe fez uma pergunta do seu desagrado.

Os seus defensores alegam que ele se limita a dizer as verdades, e é isso que choca. Mas Trump, como tantos vendedores, não se exime a usar linguagem exagerada e a distorcer a realidade, seja em relação a questões políticas ou ao seu próprio cadastro profissional. Até hoje, recusa publicar as suas declarações de impostos - como fizeram os seus rivais - apesar de se estar constantemente a gabar dos milhares de milhões que vale a sua fortuna pessoal. E quanto há dias o seu diretor de campanha agrediu uma jornalista (por acaso, era de um site que apoia Trump, mas o agressor não percebeu) Trump negou o facto e a seguir acusou-a de ter inventado a história, embora haja testemunhas.

É uma demonstração perfeita do seu modus operandi, e não deve ser nada que afaste os seus fãs. O importante é vencer, seja por que meios for. Se isto resultar para ele, também há de resultar para a América...