Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

O visionário (ou o louco) que diz que podemos viver para sempre

  • 333

O que diria sobre um homem que planeia copiar o cérebro humano para um computador e assim fintar a morte? Há quem diga que é um visionário e que é possível, outros argumentam que a intuição e os sentimentos são exclusivos das pessoas

Aviso: qualquer semelhança com a realidade pode ou não ser mera coincidência, dependendo dos avanços da ciência nos próximos anos. É que a história que lhe vamos contar parece mesmo o argumento de um filme de ficção científica, mas já esteve mais longe de se tornar real.

O protagonista desta história, relatada pela BBC, é Dmitry Itskov, um milionário russo que promete revolucionar a maneira como vivemos – e sobretudo como morremos, ou deixamos de morrer. "Nos próximos trinta anos, vou certificar-me de que todos poderemos viver para sempre", promete. E como é que vai fazer isso? Com tecnologia de ponta e uma grande fatia de sorte.

O empresário tem apenas 35 anos, mas está certo de que "se não houver qualquer tecnologia que nos torne imortais", estará morto até celebrar o 70º aniversário. Por isso, desistiu dos negócios em que fazia carreira e agora empenha-se em investir naquilo que pode ser o caminho para a imortalidade: "Estou 100% confiante de que vai acontecer. Senão, não teria começado isto".

"Isto" é o projeto que, acredita Itksov, vai permitir que a humanidade atinja uma daquelas metas que só costumavam fazer sentido nos filmes de ficção científica: "O grande objetivo do meu plano é transferir a personalidade de alguém para um corpo completamente novo", fintando as complicações de saúde que o corpo humano enfrenta com o passar dos anos.

É difícil, mas possível

Tirando o vocabulário mais técnico do caminho, o que Itskov pretende fazer é copiar o conteúdo do cérebro humano e transferi-lo para um computador, tornando-o livre de problemas de saúde. O problema deste plano é claro e pode pôr-lhe um fim ainda antes de começar: para copiar o cérebro humano, é preciso compreender o seu funcionamento na totalidade primeiro.

Há quem perceba do assunto e ache que é possível, como é o caso de Randal Koene, o neurocientista que coordena o projeto de Itskov, o 2045 Initiative. À BBC, o cientista, que já trabalhou como investigador no centro para a Memória e o Cérebro da Universidade de Boston, explica: "Todas as provas indicam que em teoria isto é possível - é extremamente difícil, mas possível. Pode-se dizer que alguém como ele é visionário e não louco, porque isso implica estar a falar de algo que é simplesmente impossível, e não é o caso".

Teoricamente, como defende Koene, é mesmo possível transferir a informação do cérebro para um aparelho eletrónico, desenhando um mapa cerebral completo que permita reproduzir a forma como os estímulos que recebemos se transformam em pensamentos e depois em decisões e atitudes.

Estamos muito longe

O nosso cérebro tem aproximadamente 86 mil milhões de neurónios, que comunicam entre si para enviar informação através de descargas elétricas. Mas mais complexo do que isso é perceber como é que se traduzem naquilo a que normalmente chamamos "mente", ou até "alma": os nossos pensamentos, memórias e sentimentos, que nos separam de um computador e nos tornam humanos.

Por isso, o neurocientista Ken Hayworth, ouvido pela BBC, tem sérias dúvidas sobre o processo: "Estamos muito longe de chegar a esse mapa. Para dar uma ideia, perceber o cérebro completo de uma mosca vai levar-nos um a dois anos. A ideia de fazer o mapa de um cérebro humano completo com a tecnologia a que podemos aceder atualmente é completamente impossível".

É como ouvir uma conversa noutra língua

O projeto Brain Initiative, coordenado pelo professor Rafael Yuste, pode ajudar. Esta investigação, que visa perceber os mistérios do cérebro para aplicar as respostas a domínios como o do Alzheimer, quer fazer um mapa cerebral que inclua a interação contínua dos neurónios de forma simultânea, o que pode abreviar o processo. Os progressos de Yuste mostram pela primeira vez as imagens que indicam a atividade de quase todos os neurónios de um pequeno invertebrado chamado hydra. "Hoje ainda não conseguimos dizer o que estes padrões significam. É como ouvir uma conversa numa língua que não percebemos", explica o professor.

Yuste espera conseguir descodificar estas interações nos próximos 15 anos, mas o grande objetivo é perceber o cérebro humano. Um passo que talvez dê esperança a Itskov, que nos próximos anos também vai estar ocupado a fugir da morte.