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A Alemanha depois do dia de horror

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FRANCOIS LENOIR / Reuters

O dia seguinte à noite em que a extrema-direita obteve resultados inéditos na Alemanha. A imprensa é clara: foi um dia de horror para Merkel

Mais de 12 milhões de alemães colocaram este domingo os seus votos nas urnas. Ainda que estivessem apenas a decidir o futuro dos estados federais em que residem, os resultados foram sentidos ao mais alto nível da política alemã. Os resultados não são de fácil interpretação, mas há uma conclusão óbvia a retirar: a Alemanha é um país dividido pela política de acolhimento dos refugiados.

O grande vencedor da noite foi o partido nacionalista e anti-imigração Alternativa para a Alemanha (AfD), que conseguiu representação nos parlamentos regionais dos três estados federais que foram a votos, passando assim a estar representado em oito dos dezasseis hemiciclos do país. Os resultados da AfD estão a ser interpretados como um sinal de alerta para a chanceler Angela Merkel, que lidera os destinos do país pelo menos até às eleições gerais de 2017.

Na Saxónia, onde a CDU de Merkel se mantém como partido mais votado mas com piores resultados do que nas últimas eleições, a AfD conseguiu uns impressionantes 24,4%. Nos outros dois estados, o partido com ligações ao movimento de extrema-direita Pegida conseguiu resultados dignos de registo, conquistando 15% em Baden-Württemberg, onde a CDU ganha desde o final da II Guerra Mundial, e 12% na Renânia-Palatinadom.

Para os sociais-democratas do SPD, parceiro de coligação de Merkel a nível nacional, os resultados também não foram os melhores: na Saxónia perdeu muitos eleitores, devendo agora organizar-se uma coligação CDU/SPD/Verdes, e tanto nesse estado como em Baden-Württemberg ficou atrás do AfD.

Um dia de horror

"Um domingo negro" para os conservadores, escreve esta segunda-feira o "Der Spiegel", que no seu editorial prevê: "Merkel vai ter de viver com a acusação de que deixou a AfD estabelecer-se à direita da CDU". O "Bild" fala de um "dia de horror" para Merkel. O ponto em que os jornais alemães estão de acordo é que a política de abertura aos refugiados da chanceler alemã pode estar a abrir espaço para que os partidos de extrema-direita se estabeleçam.

No entanto, uma sondagem citada pelo britânico "The Guardian" revela que 40% dos votantes do AfD votaram este domingo pela primeira vez, afastando-se assim a hipótese de serem antigos votantes da CDU desiludidos com o percurso de Merkel. Confirma-se, no entanto, que 56% dos votantes no partido anti-imigração o fizeram devido às políticas seguidas no que toca à crise dos refugiados.

Merkel não recua

O porta-voz da CDU Steffen Seibert já reagiu aos resultados destas eleições regionais, garantindo que o partido de Merkel pretende prosseguir as suas políticas de acolhimento dos refugiados. "O objetivo deve ser uma solução comum e sustentável para a União Europeia no sentido de diminuir o número de refugiados que cada Estado-membro recebe", explicou em comunicado.

O eleitorado alemão tem registado uma crescente polarização desde o início da atual crise dos refugiados, há cerca de sete meses. A posição de acolhimento dos migrantes assumida pelo Governo de Merkel tem suscitado críticas de movimentos de extrema-direita como o Pegida, que ganha apoio em território alemão. No entanto, uma sondagem citada pelo britânico "The Telegraph" revela que Merkel não parece estar em apuros, registando uma taxa de popularidade de 50% – a mais alta deste ano.

O AfD foi criado em 2013 por um grupo de economistas e jornalistas alemães eurocéticos. Depois da saída do seu fundador Bernd Lucke no ano passado, o partido atravessou meses de crise até se decidir a direcionar energias para a questão dos refugiados. Com estes resultados, o partido que Merkel apelidou na semana passada de "fenómeno temporário" parece não estar forçado a sair de cena assim tão cedo.