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Porque é Trump tão popular?

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Joe Raedle/Getty Images

É bastante provável que a nomeação do candidato republicano às eleições presidenciais americanas fique resolvida na próxima terça-feira. Tempo para considerar algumas explicações para o “fenómeno”

Luís M. Faria

Jornalista

Desde que Donald Trump começou a subir nas sondagens não tem havido falta de teorias a explicar o "fenómeno". É por causa dos reality-shows e da decadência geral da cultura. Porque os Estados Unidos precisam de alguém que lhes dê segurança (em especial após os atentados terroristas em São Bernardino, coincidentes com um aumento de popularidade do empresário). Porque Trump diz o que lhe vem à cabeça, numa altura em que já não há paciência para a correção política. Porque a globalização e a nova economia deixaram à margem muitas pessoas que agora querem protestar contra o sistema – ou seja, contra os políticos que melhor encarnam a ligação entre o poder político e o económico, incluindo todos os demais candidatos republicanos e a própria Hillary Clinton. Trump pode ser multimilionário, mas escapa à rejeição exatamente devido a isso. Suficientemente rico para pagar a sua própria campanha, não precisa de estar ao serviço de quem quer que seja.

Muitas das teorias assumiram que Trump não iria até ao fim. Feita a declaração de protesto, chegaria um momento em que os votantes nas primárias republicanas cairiam em si mesmos e escolheriam um candidato normal, fiel à ortodoxia ideológica e membro certificado do 'establishment' partidário. Se não fosse à primeira votação seria à segunda, e se não à segunda à terceira. Mas aconteceu o imprevisto. Trump ficou a escassos pontos do vencedor na primeira votação, e daí para a frente o seu favoritismo não parou de se consolidar. Averbou vitórias sucessivas, e na 'superterça-feira' de 1 de março ganhou uma larga maioria dos estados. É bem possível que a sua nomeação esteja prestes a tornar-se inevitável.

Isso acontecerá se na próxima 'superterça-feira', já a 15 de março, ele vencer a Florida e o Ohio, dois estados ricos em delegados eleitorais - 99 e 66, respetivamente - e onde a distribuição dos mesmos não se faz em proporção às votações obtidas. Ao contrário do que acontecia em estados anteriores, o vencedor em cada um desses dois fica com a totalidade dos seus delegados, e portanto com os seus votos no colégio eleitoral. Na Florida as chances de Trump são claramente maioritárias; no Ohio, sendo-o menos, também parecem suficientemente boas para ele ter uma expectativa razoável de vencer. Se o conseguir, nenhum dos seus únicos rivais ainda plausíveis, os senadores Ted Cruz e Marco Rubio, poderá ultrapassá-lo, e o Partido Republicano ficará com um problema bastante sério nas mãos.

Joe Raedle/Getty Images

Um processo eleitoral falso e disfuncional

De vez em quando é mencionada a hipótese de haver negociações para excluir Trump caso ele chegue à convenção republicana com uma larga maioria em delegados mas sem os 1237 que lhe dariam a vitória imediata. Essa perspetiva, que remete para uma época longínqua em que a escolha dos candidatos presidenciais envolvia uma fase final de bastidores, é uma ambição ilusória por parte dos barões republicanos. Eles agora já são acusados, e com razão, de terem feito tudo o que podiam (embora demasiado tarde, diz a outra parte da acusação) para eliminar a candidatura de Trump. Se tentassem matá-la na convenção de julho, o ressentimento pela falta de democracia quase de certeza levaria a uma cisão grave no partido.

Com a nomeação de Trump cada vez mais próxima, há opinion-makers, e não só na esquerda, a expressar-se em tom apocalítico. Num artigo que lhe dedicou em fevereiro, Matt Taibbi, da revista “Rolling Stone”, avisou: “Um milhar de acidentes ridículos tem de acontecer nas mais improváveis sequências para isso se tornar possível, mas, não acontecendo uma viragem dramática (…) este arrogante e monossilábico tirano da TV com o espectro de atenção de uma criança de 11 anos vai destruir a oligarquia mais impenetrável que o mundo ocidental já viu (…) Deixámos o nosso processo eleitoral tornar-se tão falso e disfuncional que qualquer vigarista semi-inteligente e com lata pode entrar direitinho pela porta da frente e reduzi-la a pedaços à primeira tentativa”.

Também o veterano jornalista David Remnick, DA “New Yorker”, se mostra pessimista: “Tendo praticamente limpo as primárias republicanas logo ao início, Trump – que retwita teorias da conspiração e convida as afeições de grupos de supremacistas brancos, e se estabeleceu como um herdeiro à altura de uma longa tradição de nativismo, discriminação e autoritarismo – está cada vez mais próximo de se tornar o nomeado daquilo a que os republicanos gostam de chamar ‘o partido de Abraham Lincoln’”.

Remnick conclui: “Citem-se as suas erupções mais odiosas – sobre mexicanos, sobre muçulmanos, sobre mulheres, sobre afro-americanos – e no dia seguinte haverá uma arena cheia de votantes que o acham irresistível precisamente porque é rico, e que vibram com as suas descrições brutais da condição americana”. Ou seja, Trump é popular não apesar daquilo que diz, mas por causa disso mesmo, pelo menos em parte.

Frazer Harrison/Getty Images

Encarar seriamente a possibilidade

A imagem de força e de machismo, associada ao prestígio que lhe dá a sua vasta riqueza e a uma prática de entertainer adquirida em programas vários de televisão e rádio (não só “O Aprendiz” como também, por exemplo, o desbocado “Howard Stern Show”, onde foi convidado regular durante anos), bem como através da presença e patrocínio de espetáculos de wrestling, campeonatos de boxe (Myke Tyson é um amigo pessoal, e há mais lutadores que também são apoiantes) concursos Miss Mundo e outros eventos, fazem de Trump um candidato popular. Numa época de insatisfação geral com a política, personagens televisivos e outros demagogos preenchem o vazio deixado pela incapacidade de os protagonistas habituais darem respostas adequadas a um mundo instável.

“Será o fim do Ocidente tal como o conhecemos?”, pergunta Anne Applebaum, autora de uma famosa história dos campos soviéticos (“Gulag”), num texto publicado há dias no jornal “Washington Post”. Ele refere-se a duas votações cruciais que vão ter lugar este ano. Uma delas, já em junho, é o referendo britânico sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia. A outra são as eleições presidenciais americanas. “Nos Estados Unidos, enfrentamos a possibilidade real de Donald Trump como candidato presidencial do Partido Republicano, o que significa que temos de encarar seriamente a possibilidade de um presidente Trump”, escreve Applebaum. “A campanha de Hillary Clinton pode implodir por uma série de razões, demasiado óbvias para lembrar aqui; as eleições são coisas esquisitas, e os eleitorados volúveis”.

Para alguém como Applebaum, uma norte-americana com ligações profundas ao leste europeu, até por o marido ser um antigo ministro dos Estrangeiros polaco, é particularmente deprimente o facto de Trump afixar o seu desinteresse pela Ucrânia, manifestar admiração por Vladimir Putin e dizer que os conflitos europeus não justificam sacrifícios americanos. Lembra que Trump está longe de ser um caso único. Também Marine Le Pen prometeu que o seu país abandonaria a União Europeia e a Nato, e que a França adotaria medidas económicas protecionistas. Pode bastar um súbito escândalo derrubar o candidato rival de marine (o mesmo receio que se tem ouvido com intensidade crescente em relação a Hillary) para de repente se tornar altamente provável a ascensão dela à Presidência.

Joe Raedle/ Getty Images

Para quê fazer a experiência?

Se isso se concretizar, a Europa nunca mais será a mesma. E é legítimo afirmar o mesmo sobre uns Estados Unidos que elejam Trump. Escolher um candidato abertamente racista e sexista, que se propõe deportar de uma vez 11 milhões de pessoas, excluir muçulmanos dos EUA apenas por serem muçulmanos, torturar suspeitos por métodos como o waterboarding e piores, e matar famílias de terroristas apenas por serem família, é escolher uma configuração moral diferente para um país geralmente tido como empenhado em dar uma imagem decente de si próprio.

Esta semana, vários jornais norte-americanos e europeus publicaram entrevistas com apoiantes de Trump a explicar porque o apoiavam. Duas coisas saltavam à vista. Uma, que muitos deles não queriam admitir publicamente o facto. Outra, que os motivos alegados confirmavam as suspeitas mais negras das pessoas a quem a popularidade de Trump horroriza. O mesmo caldo de frustração com a situação económica, a mesma facilidade em atribuir a culpa a certas categorias de pessoas, o mesmo apetite por soluções fortes, o mesmo elemento de irresponsabilidade – isto é só temporário, garantiam alguns – que tão trágicos resultados produziu na Europa dos anos 20 e 30.

Trump obviamente não é Hitler nem Mussolini (embora tenha citado com aprovação este último), os Estados Unidos não são a Alemanha de Weimar, e as comparações valem o que valem. Os autoritarismos não são todos iguais, e muito menos os seus contextos históricos e sociais. Mas a questão foi bem resumida por um comentador de rua, ouvido salvo erro pela BBC: com os antecedentes que conhecemos, para quê fazer a experiência?