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Internacional

Sudão do Sul deixou combatentes violarem mulheres como forma de pagamento

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Há dados sobre mais de 1300 violações e estimativas de que mais de 10 mil civis tenham sido assassinados durante a guerra civil, em apenas um dos estados do Sudão do Sul em 2015, segundo um relatório da ONU, que descreve o sucedido como “uma das mais horríveis situações de violações dos Direitos Humanos no mundo”

O Sudão do Sul deixou os combatentes das milícias pró-governamentais violarem mulheres e roubarem civis como forma de pagamento, segundo refere esta sexta-feira a ONU num relatório que qualifica o sucedido, em 2015 durante a guerra civil, como “uma das mais horríveis situações de violações dos Direitos Humanos no mundo”.

“A equipa de avaliação recebeu informação de que as milícias armadas... que levaram a cabo ataques com o Exército do Sudão do Sul (ESS) fizeram violações no âmbito de um acordo de ‘façam o que puderem e levem o que puderem’”, refere o documento.

“O relatório contém angustiantes descrições de civis suspeitos de apoiarem a oposição, entre os quais crianças e deficientes, mortos ao serem queimados vivos, sufocados em contentores, alvejados, enforcados em árvores e desmembrados”, descreve o gabinete de Direitos Humanos das Nações Unidas.

Em 12 meses, até novembro de 2015, estima-se que 10.553 civis tenham morrido só no estado da Unidade, 7165 devido a violência e 829 por afogamento.

As violações como uma arma de guerra que passou internacionamente despercebida

Os investigadores recolheram relatos de mais de 1300 violações, apenas no estado da Unidade. Num dos casos, os combatentes discutiram sobre se iam violar uma menina de seis anos, acabando por matá-la.

“A escala e tipo de violência sexual – sobretudo das forças do ESS e das milícias suas apoiantes – são descritas com detalhes devastadores”, refere o documento, que aponta a existência de um padrão que mostra que as mortes não terão sido aleatórias, isoladas, ou acidentais, parecendo antes deliberadas, sistemáticas e baseadas na etnicidade.

Zeid Ra'ad Al Hussein, responsável das ONU para os Direitos Humanos, diz que o número de violações deve representar apenas uma pequena parte do total e que, tendo em conta a sua amplitude, a sua prática consistiu numa arma de guerra e de aterrorização, que passou contudo quase despercebida internacionalmente.

Mesmo as mulheres que se encontravam refugiadas nos campos da ONU estavam em risco quando saíam para arranjar comida ou lenha.

Criadores de gado sufocados dentro de contentor

As forças do ESS capturaram também 60 criadores de gado e fecharam-nos num contentor, existente nas instalações de uma igreja Católica. Apenas um deles não morreu sufocado nos dois dias seguintes.

Apesar de todos os lados envolvidos no conflito terem cometido atrocidades, as forças governamentais foram os maiores responsáveis pelos crimes contra a Humanidade ocorridos em 2015 no Sudão do Sul, considera o documento da ONU.

A guerra iniciada em dezembro de 2013 no Sudão do Sul remeteu o mais jovem país do mundo para uma situação caótica e devastadora, causando dezenas de milhares de mortos, mais de dois milhões de deslocados e deixando pelo menos 40 mil pessoas a passar fome.