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Sobreviver: o único objetivo de quem foge à guerra

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Campo de refugiados dos Médicos sem Fronteiras no Sudão do Sul

JM LOPEZ/AFP/Getty Images

Saqer chegou a casa para encontrar um dos seus filhos morto. Makuach fugiu da sua cidade, dizimada pela guerra. São pessoas como nós, que estavam no lugar errado a uma hora que nunca deveria chegar. São os sobreviventes de guerras que só vemos na televisão

Em que é que uma pessoa pensa quando vê a sua vida e a dos seus destruída, quando o estrondo das bombas a faz tremer, quando da sua casa só restam ruínas? Sobreviver. Dar o próximo passo, que não sabe onde a vai levar. Continuar viva.

Esta é a premissa da campanha #Seguirconvida que os Médicos Sem Fronteiras (MSF) estão a promover, através de uma série de exposições e vídeos que visam dar a conhecer uma realidade que nos parece tão distante. Os MSF querem lembrar que as notícias de mortes e tragédia que vemos na televisão não se resumem a números: há pessoas, caras, vidas por trás disso.

O objetivo é mostrar "a vida dos civis que fogem, que ficam soterrados pelas bombas e que conseguem escapar", explica Amaya Esparza, diretora da comunicação desta organização ao "El Mundo". "As populações que mais precisam de ajuda humanitária costumam estar nas zonas mais isoladas e de difícil acesso, onde trabalham, muitas vezes sozinhas, as equipas dos MSF. Porque dar assistência em zonas de conflito é muito arriscado e difícil", justifica.

Durante este ano, a exposição #Seguirconvida vai mostrar uma realidade dura em seis cidades espanholas. Por cá, quem quiser conhecer as histórias de quem já só luta para sobreviver pode consultar o website da organização e ver os vídeos de 360º que mostram as condições de países como a Síria ou o Sudão do Sul.

Porque é que nasci aqui?

"Porque é que estou aqui? Porque é que nasci aqui, neste país?". A pergunta é feita por Samuel Makuach, um jovem sudanês de 23 anos que foge da guerra no seu país. E a pergunta lembra-nos que é essa a diferença entre ele e nós: o sítio onde nascemos.

Makuach vive num campo de refugiados que ocupa meio quilómetro quadrado e alberga quase 50 mil pessoas. Falta quase tudo: as condições são poucas, a quantidade de água distribuída por pessoa fica muito aquém do desejável.

É melhor do que aquilo que deixou para trás. A guerra civil do Sudão do Sul começou em 2013 e arrasou a cidade de Malakal, a segunda mais importante do país; ali ficaram hospitais destruídos, ruínas de mercados e escolas, e fugir foi a única maneira de continuar vivo.

Um dos meus filhos já estava morto

Quando Saqer entrou em casa, um dos seus filhos já estava morto. "Estávamos em casa, tinha trazido doces para a minha família, saí para ver o que se passava e nesse momento a casa foi atacada. Um dos meus filhos já estava morto. Os outros estavam feridos". Saqer vivia na província síria de Dará quando tudo aconteceu; levou a família para um hospital na Jordânia que com o apoio dos Médicos Sem Fronteiras ajuda a tratar os feridos de guerra. Agora quer voltar à vida normal, talvez para esquecer que o normal já não volta e o que a guerra lhe tirou não pode ser devolvido.

As histórias de Makuach e Saqer, relatadas pelo "El Mundo", são apenas duas das que nos relembram que quem sofre estes horrores são simplesmente pessoas. Os vídeos gravados pelos MSF nas zonas de conflito ajudam a percebê-los, mas também arrepiam:

  • Dois anos de guerra no Sudão do Sul

    Mais de dois milhões de refugiados, quatro milhões de pessoas com fome e 15 a 16 mil crianças a combater no conflito. Estes são só alguns dos números que explicam a dimensão da guerra no Sudão do Sul

  • Síria atiça nova Guerra Fria

    Vinte e sete anos depois da queda do Muro de Berlim, a tensão entre a Rússia e o Ocidente volta às primeiras páginas dos jornais, agora a propósito do conflito na Síria. Estará o mundo próximo de um terceiro conflito mundial, espectro sobre o qual começam a surgir alertas?