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Quase 20 anos depois, criança raptada reencontra família

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Celeste Nurse, maãe da bebé raptada, à chegada ao tribunal

STRINGER/AFP/Getty Images

Podia ser uma história ficcional mas foi a realidade dos Nurse. Ainda na maternidade, a bebé Zephany foi levada por um estranho. Quase 20 anos depois, mãe e filha reencontraram-se. Afinal, a menina que já é mulher viveu sempre a pouca distância da família biológica

Zephany nasceu em abril 1997. Aos três dias de vida, foi levada da maternidade por um estranho. Cresceu e até ao ano passado viveu com uma identidade e uma família que não eram suas. Só aos 17 anos descobriu toda a verdade, que afinal morava apenas umas ruas acima da sua. Esta quinta-feira, a mulher que levou e criou Zephany foi considerada culpada do crime de rapto.

Em tribunal, a arguida, cuja identidade não foi revelada, jurou a pés juntos que não sequestrou nenhum bebé. Perante o juiz, explicou que após ter sofrido um aborto pagou a uma pessoa que lhe prometeu encontrar uma criança para adotar. Em abril de 1997, a promessa foi cumprida: Zephany foi-lhe entregue enrolada a um cobertor numa estação de comboio.

“A senhora tem que ser a pessoa que retirou a criança do hospital. A história que conta, na melhor das hipóteses, é um conto de fadas, e este tribunal rejeita-a com o desprezo que merece”, disse o juiz John Hlophe, citado pelo jornal britânico “The Guardian”.

Aquela que Zephany pensava ser sua mãe foi detida logo em fevereiro de 2015. Só agora foi considerada culpada e voltará a tribunal a 30 de maio para ouvir a sentença. Espera-a, no mínimo, uma pena de cinco anos de prisão.

Acordar no pesadelo da realidade

Recuemos a 27 de abril de 1997. Naquele domingo, Celeste e Morné Nurse chegaram ao hospital Groote Schuur, na Cidade do Cabo, África do Sul. A primeira filha do casal nasceu nesse dia, de cesariana. Zephany foi o nome escolhido.

Até aqui a história não foge à realidade de milhões de famílias em todo o mundo. Aquele foi o melhor dia das suas vidas. Só que apenas três dias depois a felicidade do casal transformou-se numa das mais profundas tristezas: a perda de um filho.

Celeste Nurse estava meio adormecida, contou ao jornal sul-africano “IOL”, em 2010. Pelo olho entreaberto, a mãe percebeu que lhe alguém pegou na bebé ao colo e a levou. Pensou que fosse uma enfermeira, pelas cores e as roupas que usava. Ficou descansada e deixou-se levar pela força do sono.

Quando acordou, Zephany tinha desaparecido, nada nem ninguém sabiam da recém-nascida. “Foi como um funeral. Triste. Sentimo-nos vazios, perdidos. Só perguntávamos o porquê de isto nos ter acontecido... Porquê?”, recordou a mãe da bebé ao “The Guardian”, numa entrevista em 2015.

Celeste Nurse chegou a ter filha nos braços mas não pôde levá-la para casa, nem nunca a colocou no berço ou no quarto em tons de azul, amarelo e branco que tinha preparado ao longo da gestação. Estava tudo preparado para receber Zephany. E Zephany não chegou.

17 anos depois, o reencontro

Ao longo dos anos, os Nurse garantem que não perderam a esperança e foram algumas as vezes que receberam telefonemas a oferecer informações sobre a bebé desaparecida em troca de dinheiro. Todas essas chamadas se revelaram tentativas de extorsão.

Mas a vida continua. Depois deste episódio , o casal teve mais três filhos – nascidos no Hospital Groote Schuur: Cassidy, hoje com 15 anos, Joshua, com 10 e Micah com 8.

Em janeiro de 2015, Cassidy entrou para uma nova escola. Foi lá que os colegas chamaram à atenção para o facto de haver uma menina mais velha que era muito semelhante com ela. Era Zephany. Quando as ambas ficaram frente a frente, já não havia dúvidas: eram a cara chapada.

A primeira vez que Morné Nurse reencontrou a filha foi num restaurante de uma cadeia de fast food. Zephany e Cassidy estavam juntas a comer um hambúrguer, ainda sem suspeitarem que eram irmãs. As parecenças eram tantas que os Nurse contactaram as autoridades, que fez análises de ADN. A resposta foi a que a família mais queria ouvir, aquela hovem, já quase mulher, era mesmo Zephany.

“Com o passar do tempo, havia pessoas negativas que levantavam a possibilidade dela ter morrido mas a família não. Sabíamos que estava viva. Todos os anos celebrávamos o seu aniversário. Ela agora está de regresso e vamos fazer uma grande festa”, referiu Celeste Nurse.

Afinal, Zephany tinha estado toda a vida por perto. Morou e viveu a uns quarteirões de distância da família biológica. “Nunca, nunca perderei a esperança. Tenho um instinto de que a minha filha está por aí e vai regressar a casa”, dizia o pai em 2010. E o instinto estava certo.