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Cinco anos depois do desastre de Fukushima, nem os robôs sobrevivem à radiação

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Uma mulher reza pelas vítimas do tsunami e terramoto de Fukushima, em Rikuzentakata, Japão

O sismo e consequente tsunami que abalaram o Japão a 11 de março de 2011 provocaram o pior desastre nuclear desde Chernobyl na central de Fukushima. Mais de 60 mil japoneses vivem em casas improvisadas desde então. Ministro da Reconstrução diz que ainda serão precisos mais cinco anos até tudo regressar à normalidade

Era uma sexta-feira tal como hoje. Há precisamente cinco anos, a 11 de março de 2011, um sismo de magnitude 9 abalou a costa leste do Japão, gerando uma onda de dimensões massivas que atingiu a central de Fukushima e que provocou o maior desastre nuclear da História moderna desde o incidente de Chernobyl em 1986. Quase 19 mil pessoas perderam a vida, contando com as 18 mil que continuam oficialmente desaparecidas até hoje. E dos 160 mil japoneses que foram retirados das imediações da central, entre 60 mil e 100 mil vivem há meia década em alojamentos improvisados sem possibilidade de voltarem para as suas casas.

Esta manhã, marcando os cinco anos do pior sismo algum dia registado no Japão, a Greenpeace advertiu que "não há solução à vista para os quase 100 mil deslocados". "Não sabemos exatamente o que causou o acidente e o governo japonês continua a minimizar o nível de radioatividade nas zonas que tiveram de ser evacuadas", lamentou em comunicado Junichi Sato, diretor do braço nipónico da organização ecologista. "É trágico e inaceitável."

Para os ambientalistas, a crise na central Fukushima Daiichi ("número 1", em japonês), que está em processo de desmantelamento, foi “um dos piores acidentes industriais da história” e os governos devem apostar urgentemente na “energia limpa, renovável e segura”. É o que o Japão tem tentado fazer, tendo anunciado em meados de fevereiro que pretende triplicar a produção de energia eólica até 2020 — semanas antes de um tribunal nipónico ordenar o encerramento imediato de dois reatores da central de Takahama por "motivos de segurança" e com base "nas lições de Fukushima".

Não é para menos. Cinco anos depois do desastre de proporções míticas, as autoridades nipónicas continuam a tentar lidar com os estragos e os altíssimos níveis de radioatividade registados dentro e ao redor da central de Fukushima. São tão altos que nem os robôs sobrevivem, apontava na quinta-feira a Reuters num artigo a marcar o quinto aniversário do sismo e consequente tsunami.

"Os robôs enviados para detetar os níveis de radiotividade do combustível nos reatores nucleares de Fukushima morreram", conta o correspondente da agência. Cinco anos depois, continua, "uma 'parede de gelo' subterrânea ao redor da central parcialmente destruída, cujo objetivo era impedir que a água no subsolo fique contaminada, continua por concluir. E as autoridades ainda não sabem como se ver livres da água altamente radioativa que está armazenada num crescente número de tanques ao redor da central."

Hoje, os níveis de radiação na central continuam tão altos que tornam impossível chegar às entranhas das instalações e remover os materiais perigosos das barras de combustível derretidas que continuam dentro dos reatores. A operadora de Fukushima, a Tokyo Electric Power Co (Tepco), conseguiu alcançar alguns progressos, retirando parte dessas barras de um dos edifícios mais afetados pela onda de 10 metros de altura que varreu a central. Mas a tecnologia necessária para retirar o combustível radioativo dos outros três reatores ainda não foi desenvolvida, aponta a agência no mesmo artigo.

"É extremamente difícil aceder ao interior da central nuclear", admite Naohiro Masuda, o responsável da Tepco pela desativação da central. "O maior obstáculo é a radiação."

Duramente criticada por não ter planos de contingência preparados para reagir de imediato ao desastre, a Tepco encetou esforços para conseguir reduzir os níveis de radioatividade ao redor de Fukushima. E nalgumas zonas da região, poucas, conseguiu que esses níveis baixassem para os mesmos valores registados atualmente em Tóquio. Mas os trabalhos de desativação e desmantelamento da central podem durar mais 30 a 40 anos a estarem concluídos.

A par disto, o governo tem investido milhares de milhões de euros nos esforços de reconstrução das zonas mais afetadas pelo sismo, mas grande parte do trabalho continua por concluir. "A reabilitação e reconstrução chegaram a um determinado nível em termos de equipamento, mas ainda há falta de software", confirma o ministro japonês da Reconstrução, Takagi Tsuyoshi, citado pela BBC. "Vamos ter ambos os aspetos em atenção no futuro e alcançar uma reconstrução total nos próximos cinco anos", prometeu esta manhã.

Para marcar o quinto aniversário do desastre, o Japão vai cumprir um minuto de silêncio às 14h46 locais (7h46 da manhã em Lisboa), a hora a que o sismo abalou o leste do país. Logo a seguir, o primeiro-ministro, Shinzo Abe, e o imperador Akihito vão depositar flores numa cerimónia na capital em memória das vítimas.