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Ativista no banco dos réus por ajudar família de refugiados sírios

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Sean Gallup

É esperado para esta sexta-feira um veredito no caso de Lisbeth Zornig e do seu marido, formalmente acusados de tráfico humano no âmbito das novas e polémicas leis anti-imigração adotadas pelo governo da Dinamarca no final de 2015. O crime: terem servido café e biscoitos a uma família de sírios em Copenhaga antes de lhes comprarem bilhetes de comboio para a Suécia

O julgamento de uma proeminente escritora e ativista pelos direitos das crianças na Dinamarca, cujo veredito deverá ser ditado hoje por um tribunal de Copenhaga, está a pôr sob os holofotes as polémicas medidas anti-imigração aprovadas pelo governo dinamarquês perante aquela que é a pior crise humanitária a atingir a Europa desde a II Guerra Mundial.

Apesar de, entre setembro de 2015 e fevereiro deste ano, 279 pessoas terem sido formalmente acusadas de crimes variados no âmbito da nova legislação, foi o caso de Lisbeth Zornig que catupultou o assunto fraturante para a esfera mediática. Zornig é acusada de tráfico humano por ter transportado no seu carro uma família de refugiados sírios para Copenhaga. O seu marido está também a ser julgado por oferecer biscoitos e café a essa família na casa de ambos, na capital dinamarquesa, antes de os conduzir até à estação de comboio mais próxima, onde lhes comprou bilhetes para a Suécia.

A 7 de setembro, Zornig e o marido estavam a passar de carro por uma multidão de refugiados que caminhavam à beira da estrada quando decidiram ajudar uma família de quatro adultos e duas crianças oriunda da Síria. As imagens da família a entrar no carro do casal foram disseminadas pela televisão, que na altura entrevistou a ativista.

"Não podia simplesmente voltar para casa com o carro vazio. Não achei que fosse proibido dar boleias", declarou mais tarde, já depois de ter sido acusada. "Julgava que tráfico é quando se passa uma fronteira ou quando se exige dinheiro e se beneficia disso — não quando se conduz dentro do país. Mas infelizmente parece que isto é tráfico na Dinamarca", acrescentou há poucas semanas, quando se declarou inocente das acusações que pendem sobre si, mantendo que se limitou a "ajudar pessoas em necessidade".

Zornig chegou a trabalhar para os serviços de proteção de menores do Estado como ombudsman (termo que designa uma pessoa responsável por fazer a ponte entre uma instituição e a sua comunidade), mas foi como escritora que se tornou famosa na Dinamarca. O seu julgamento é o primeiro a ter lugar desde que o projeto-lei anti-imigração foi implementado em setembro, numa altura em que centenas de milhares de refugiados estavam a fazer travessias a pé da Alemanha até à Dinamarca em rota para a Suécia, cuja postura à data era mais relaxada no que toca a dar asilo aos refugiados que têm chegado à Europa desde 2013.

Sob o chamado Aliens Act da Dinamarca, passou a ser crime transportar pessoas que não têm autorização de residência no país. Em janeiro, um outro cidadão foi multado em 5000 coroas dinamarquesas (670 euros) por dar boleia a uma família de refugiados afegãos a partir da fronteira com a Alemanha também em setembro. Ontem, um pensionista de 70 anos foi obrigado a pagar uma multa de 12500 coroas dinamarquesas (1676 euros) por uma ofensa semelhante.