Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

“Superdomingo”. Políticas de asilo da “mamã Merkel” testadas em eleições regionais

MICHAELA REHLE

Mais de 12 milhões de habitantes de três estados federais vão às urnas escolher os seus governos locais e muitos antecipam que a CDU da chanceler vai perder votos para partidos anti-imigração como a AfD. Ainda assim, Merkel atingiu esta semana a mais alta taxa de popularidade entre os alemães desde que decidiu abrir as fronteiras a mais de um milhão de refugiados

Angela Merkel está em campanha. Apesar de as próximas eleições federais da Alemanha só acontecerem em 2017, no próximo domingo parte da população é chamada a votar em eleições regionais vistas como o derradeiro teste às políticas de asilo da chanceler. É por isso que, esta semana, Merkel participou num comício na pequena cidade de Swabia, em Baden-Württemberg, onde discursou contra a tendência dos alemães "que veem sempre os riscos e não as oportunidades".

Este domingo, meio ano depois de o seu governo ter decidido abrir as fronteiras às centenas de milhares de refugiados que continuam a chegar em massa à Europa desde 2013, os alemães de três regiões federais escolhem os seus governos locais e muitos analistas antecipam que a CDU da chanceler vá perder votos para partidos anti-imigração como o AfD.

"Muitas pessoas neste país estão descontentes e muitas pensam que agora é o momento para dar uma lição ao governo", declarou a chanceler nesse comício, numa clara contracrítica ao criticismo de muitos perante a sua opção de oferecer asilo a um milhão de pessoas entre janeiro e dezembro de 2015. "Mas isto", acrescentou, "tem a ver convosco e com as vossas escolhas."

As eleições deste fim de semana em três estados estão revestidas de tal importância que o dia da votação já foi batizado "Superdomingo", como a Superterça-feira das primárias norte-americanas. Mais de 12 milhões de eleitores são chamados às urnas naquele que é o primeiro plebiscito desde que a chanceler se transformou na "mamã Merkel" dos sírios, afegãos, iraquianos e cidadãos de outros países do Médio Oriente e África que, perante guerras e repressões sangrentas, decidiram abandonar tudo para procurarem refúgio na Europa.

O descontentamento com esta política é notório. Em setembro, mais de 40% da população de Baden-Württemberg, onde Merkel esteve no início da semana, apoiava a sua União Democrata-Cristã (CDU), mas esse número caiu a pique desde então: pela primeira vez desde a II Guerra Mundial, aponta esta quinta-feira o britânico "The Guardian", os conservadores parecem estar prestes a perder o estatuto de maior partido da região. Há comentadores dentro da Alemanha a prever que uma derrota nessa região vá, inclusivamente, gerar movimentos dentro da coligação CDU-CSU para depor a sua líder.

"Vamos perder entre 8% a 10% dos nossos votos para o Alternativa para a Alemanha [AfD]", declarou Hans-Günther Knaupp, um advogado que integra as fileiras da CDU, num comício de campanha na terça à noite. "A postura [da chanceler] quanto à crise dos refugiados é a correta para o mundo, mas é a errada para o seu partido aqui em Baden-Württemberg."

O AfD está em rota contrária à da CDU, angariando neste momento intenções de voto de duplos dígitos nos três estados, uma previsão que, a confirmar-se, será histórica para o partido anti-imigração que só nasceu há três anos e que quase colapsou em julho quando o seu líder resignou ao cargo.

Para contrariar a tendência decrescente da CDU, os candidatos do partido estão a tentar distanciar-se da sua líder, com algums, como Guido Wolf, a aplaudirem publicamente o acordo alcançado esta semana entre a União Europeia e a Turquia, que prevê a "devolução" dos refugiados e migrantes ao país de onde partem para as ilhas gregas numa tentativa de encerrar a rota dos Balcãs.

Outras sondagens, contudo, parecem demonstrar que os eleitores de centro-direita que Merkel alienou com as suas políticas de integração e asilo foram substituídos por muitos outros liberais e de esquerda. Se, em janeiro deste ano, cerca de 40% da população defendia que Merkel deve demitir-se por causa do acolhimento de refugiados, uma sondagem da Forsa divulgada esta quarta-feira mostra que a taxa de aprovação da chanceler está novamente a subir — com 50% dos eleitores a dizerem agora que votariam nela se as eleições federais fossem hoje, contra os 13% que apoiariam Sigmar Gabriel, o seu rival do Partido Social Democrata (SPD).

"Merkel está a deixar de ser uma política prosaica", escreveu esta semana Heribert Prantl no jornal de centro-esquerda "Süddeutsche Zeitung". "Está a tornar-se na primeira estadista da Alemanha."