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O robô que parece mesmo uma pessoa (e isso é bom ou dá-lhe um ar de psicopata?)

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A Toshiba quer usar o Chihira Kanae para atender clientes no sector do turismo

TOBIAS SCHWARZ / Getty

Parece uma pessoa, fala como uma pessoa, mexe-se (quase) como uma pessoa, mas... não é uma pessoa

Imagine que se aproxima de um balcão de uma agência de viagens para pedir informações. Faz a pergunta a um funcionário ali presente, ele responde, e começa a notar que os seus movimentos são um bocadinho mais rígidos do que o habitual e que a voz é diferente do que esperava. Será que está a falar com... um robô?

É uma experiência que pode não estar assim tão longe de acontecer, pelo menos tendo em conta os últimos esforços que a Toshiba está a levar a cabo. É que a empresa apresentou o seu novo aparelho de aparência humana, o Chihira Kanae, na receção de uma feira de viagens em Berlim, para ilustrar as vantagens que um robô como este pode ter para o sector do turismo.

Agora volte ao reino da imaginação: depois daquela experiência, sente-se satisfeito com o atendimento ou acha esquisito ter de manter uma conversa com um aparelho? Não há resposta certa: segundo o especialista citado pela BBC Noel Sharkey, nos Estados Unidos as pessoas preferem interagir com alguém de carne e osso, mas no Japão estas inovações são muito apreciadas.

O robô já é capaz de manter diálogos em chinês, japonês, inglês, alemão e linguagem gestual

O robô já é capaz de manter diálogos em chinês, japonês, inglês, alemão e linguagem gestual

TOBIAS SCHWARZ

A Toshiba tem trabalhado para tornar o Chihira Kanae cada vez mais parecido com um humano, tornando os seus movimentos mais fluidos e acrescentando o alemão à lista de línguas que fala fluentemente (o robô já conseguia expressar-se em inglês, japonês, chinês e através de linguagem gestual). O robô consegue interpretar e falar estas línguas, respondendo a perguntas pré-programadas, relata a Reuters – quando na feira de Berlim um visitante o convidou para jantar, a única resposta que obteve foi silêncio.

Segundo Hitoshi Tokuda, especialista do centro de pesquisa e desenvolvimento da Toshiba citado pela BBC, "o Chihira Kanae foi criado para ter uma aparência humana que as pessoas, particularmente os mais idosos, podem achar mais acessível e reconfortante". "Isto é particularmente importante porque a Chihira Kanae pode ser usado no sector de saúde para pessoas idosas, além das indústrias de turismo e serviços", acrescenta Tokuda.

No entanto, Noel Sharkey, especialista em robótica na Universidade de Sheffield, está precisamente convencido do contrário. "É muito bom enquanto robô, mas continua a ter ar de psicopata assassino", explica o perito à BBC. "Pessoalmente, preferiria sempre saber que estou a lidar com um robô e não ser enganado por uma máquina. É uma questão de confiança."

Para onde vão os postos de trabalho?

O Chihira Kanae começou por ser apresentado ao público no Japão, no mês passado, e é o sucessor de dois modelos anteriores: o Chihira Aiko, lançado em 2014, e o Chihira Junko, que foi apresentado em outubro do ano passado.

Mas este não foi o único robô do género a atrair olhares curiosos e perguntas despropositadas na feira. A empresa francesa Aldebaran Robotics também apresentou o robô Mario, que já está a ser testado no hotel Marriot, em Gent, na Bélgica. No entanto, Fabrice Goffin, o cofundador da marca responsável pelo software que dá vida a Mario, a QBMT, garante à Reuters: "O objetivo é fazer as pessoas sorrir e dar-lhes uma experiência única. Não é roubar postos de trabalho aos funcionários".

A ideia também provoca dúvidas a Richard Singer, presidente do ramo europeu da Travelzoo, uma agência de viagens que estudou a opinião dos consumidores sobre este tópico e descobriu que continuam a querer contacto humano quando vão de férias. "Os consumidores ainda querem lidar com humanos, porque de outra forma cria-se um medo genuíno de que diferenças culturais, humor e ironia faltem e que a experiência de viajar se torne demasiado impessoal."