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O futebol digno dos filhos de prostitutas

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Os filhos das prostitutas de Calcutá, na Índia, eram discriminados e ignorados socialmente. O futebol trouxe-lhes oportunidades que pareciam impossíveis

Diz quem não gosta de futebol que tudo se resume a 22 jogadores a correrem atrás de uma bola. Para um grupo de jogadores de Calcutá, na Índia, um jogo significa muito mais do isso: é a aprovação de quem os rodeia, é a normalidade, é uma vida nova e mais justa.

A Liga de Futebol Padatik, que se disputa naquela cidade, não é uma liga de futebol qualquer. Os cerca de 100 jogadores não são profissionais, mas chegam a ser seduzidos por clubes maiores. E têm uma característica comum: todos eles são filhos de prostitutas.

A organização da competição é responsabilidade do Durbar Mahila Samanwaya Comittee (DMSC na sigla original), uma organização que reúne 65 mil prostitutas e que é o único núcleo do género na Índia, fundado há cerca de cinco anos. O DMSC também dá casa aos filhos destas mulheres, que muitas vezes não aguentam o estigma que enfrentam por causa da ocupação das mães e acabam por desistir da escola.

"As crianças desistiam da escola por causa do estigma. Precisávamos de algo em que se pudessem concentrar. E toda a gente gosta de futebol", explica a secretária do DMSC, Bharati Dey, à BBC.

O amor destas mães

A solução parece estar a resultar. Este ano, as 16 equipas foram batizadas com nomes de bairros de prostitutas daquela zona, e conseguiram patrocínios como se de grandes clubes se tratassem: "Estou orgulhoso de ter 16 equipas, e ter vendido as 16", diz Dey. Algumas delas são patrocinadas (sempre em troca de valores modestos a rondar os 99 dólares, ou 90 euros) por banqueiros reformados ou pintores.

O esquema vale aos jogadores o que eles mais ambicionam: o respeito de quem os rodeia, ou não fossem os colegas de escola que outrora os gozavam os que agora assistem aos jogos e os apoiam. "Tivemos de aprender sozinhos a jogar futebol. Não tínhamos um verdadeiro treinador ou um campo para jogar. Quando jogávamos na aldeia as pessoas diziam coisas maldosas", relata Mushtaq Gazi, que aos 14 anos joga pela equipa de Bairhat.

É precisamente este o objetivo do DMSC. No website do grupo, as missões que ambiciona cumprir estão expressas de forma clara: "O Durbar quer construir um mundo em que todas as comunidades marginalizadas vivam num ambiente de respeito, direitos e dignidade. Esperamos uma nova ordem social onde não haja discriminação por classe, casta, género ou ocupação".

E os meios para atingir estes fins querem-se mais amplos, mesmo na área do desporto. Na mesma página fala-se da vontade de construir agora "um campo de futebol, uma piscina, um campo de basquetebol e voleibol e um ginásio", embora o DMSC não conte com qualquer apoio financeiro: só mesmo com "o amor destas mães e as pequenas contribuições que podem oferecer".

Estamos habituados a desafios

Além dessa validação social, há outra vantagem: a visibilidade que estas equipas estão a conseguir. Como a BBC relata, sete ou oito dos jogadores desta liga já foram recrutados para jogar pela equipa nacional do Oeste de Bengala; outros já treinam mesmo com as seleções sub-16 e sub-15 da Índia.

O caminho não é fácil: não têm treino profissional, não se alimentam como deviam. Mas não é a primeira vez que fazem o que parecia impossível. "Estamos habituados a desafios", lembra Dey.