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Lembra-se do polémico restauro de “Ecce Homo”? Agora há um caso parecido mas com um castelo

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O castelo de Matrera, em Cádiz, foi erguido em finais do século IX e mandado reconstruir por Fernando III de Castela no século XIII. Mas é o sua mais recente recuperação, em betão, que fará parte da História futura. As opiniões são unânimes: este é “um dos piores restauros do mundo”

Quando Omar ibn Hafsún, guerrilheiro andaluz do século IX, mandou erguer um pequeno castelo num monte em Villamartín, Espanha, longe estaria de pensar que 12 séculos volvidos o seu prezado domicílio seria alvo da mais recente polémica do restauro espanhol.

A fortaleza do castelo de Matrera, localizada perto de Cádiz, foi recentemente recuperada por uma equipa de construção local, aparentemente nada especializada em restauro de edifícios antigos. Nos pedaços em falta do edifício, a pedra antiga deu lugar ao betão, tornando o resultado final tão insólito quanto polémico.

Restauros “desastrosos” como este não são inéditos em solo espanhol: lembremos a tentativa de recuperação da obra “Ecce Homo”, em Saragoça, pela pintora amadora local Cecilia Jiménez, tida como a pior obra de restauro de sempre no mundo da pintura. E anos antes, em 2002, um grupo de construtores em Madrid destruiu também a casa do santo padroeiro da cidade, São Isidro.

Talvez por isso, o novo castelo de Matrera já seja considerado “o pior restauro arquitetónico do mundo”, reacendendo o debate sobre como a Espanha trata o seu património cultural. Para já, o pequeno monte que resistiu a tudo e todos durante a Reconquista espanhola tem uma nova batalha pela frente.

“Apenas se esqueceram de pôr um satélite e um sinal da Coca-Cola”

A opinião local é unânime: este é o pior restauro de sempre. Entre os habitantes de Villamartín, todos se revoltam e muitos são os que gozam com a situação, classificando o resultado de “terrível” ou “um desastre” arquitetónico. “Apenas se esqueceram de pôr um satélite e um sinal da Coca-Cola”, ouve-se por estes dias na província de Cádiz.

O grupo de conservação espanhol Hispania Nostra junta-se aos protestos. “A ‘conservação e restauro’ – como lhe chamam os arquitetos que intervieram – é verdadeiramente lamentável e surpreendeu pela negativa os locais e os estrangeiros”, lê-se em comunicado. “Não são precisos comentários, basta ver a fotografia. Já nos escreveram estrangeiros que não compreendem como, em Espanha, este tipo de disparates e massacres ao património continuam a acontecer”.

O arquiteto contratado para a obra – encomendada por uma empresa privada que detém os terrenos do castelo – defende-se. “As opiniões são sempre bem-vindas, a crítica construtiva e o debate enriquecem sempre”, defende Carlos Quevedo Rojas.

À cadeia espanhola “La Sexta”, acrescentou que pretendia tornar a obra “o mais parecida possível ao original” e que apenas queria, com esta “consolidação”, que não caísse o que ainda restava do monumento.

Um pedaço de História que até Espanha esqueceu

Em finais do século IX, Omar ibn Hafsún, descendente dos godos, era um eterno rebelde contra o emirado de Córdoba, na altura dono e senhor de grande parte da Península Ibérica. Mandou então construir o castelo de Matrera, 523 metros acima do nível do mar, no cimo de um monte de Cádiz. Ato de pura rebeldia, o castelo serviu para a defesa de Iptuci, antiga colónia romana de que hoje sobram poucos ou nenhuns vestígios.

Quatro séculos depois, Matrera esteve na posse de Fernando III, rei de Castela durante a Reconquista espanhola e neto da rainha D. Urraca, que chegado a Cádiz no século XIII ordenou a reconstrução da fortaleza árabe. Das mãos da Ordem Militar de Calatrava, dona e senhora do castelo por direito de conquista, Matrera voltou a mãos muçulmanas nos princípios do século XIV, sendo reconquistado de forma definitiva por Afonso XI em 1341.

Situado em plena fronteira mourisca, o castelo foi alvo de ataques constantes dos muçulmanos em 1408 e 1445. E a toda esta História resistiu.

Durante séculos, as paredes de Matrera resistiram o melhor que puderam às batalhas entre mouros e cristãos andaluzes, sendo parte do património nacional espanhol desde 1949 e bem de interesse cultural desde os anos 80. Mas as forças do castelo fizeram-se fracas perante o tempo e os tempos, tornando-se mera vítima ao passar das intempéries da História.

Em 2013, chuvas fortes caídas na Andaluzia levaram ao desmoronar dos três andares da torre. O castelo estava votado ao abandono e o fim de um marco na história espanhola era há muito esperado, depois dos muitos avisos. Os historiadores culparam a autarquia, a autarquia culpou os proprietários do terreno, em posse de privados, a quem fazia anos que andavam a pedir obras de conservação. Certo é que as muralhas cederam. Ninguém fez nada para o evitar.

O local continuou a ser visitado por milhares de turistas todos os anos e manteve-se pela sua importância uma das grandes atrações dos passeios históricos pela região.

O “novo” castelo manter-se-á até decisão contrária da autarquia andaluza. Mas por agora, 14 séculos depois de ser erguido, em vez do castelo original será o próprio restauro da antiga fortaleza de Matrera a fazer parte da História.