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Há uma máquina que nos venceu. “O computador não fica cansado, não se esquece, não se preocupa”

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O campeão mundial de Go, Lee Se-dol, foi derrotado pelo computador da Google AlphaGo. O investigador Aja Huang mexeu as peças conforme a vontade do AphaGo

Kim Min-Hee/ Getty Images

É mais um marco para a inteligência artifical: um computador da Google venceu o campeão mundial de Go, um jogo tradicional chinês que se distingue por ser mais complexo e intuitivo que o xadrez

O que é que os dias 8 de março de 2016 e 17 de fevereiro de 1996 têm em comum? Para começar, são datas que vão ficar para a História. Para mais, ambas foram protagonizadas por um campeão humano e um computador que o venceu.

É provável que nunca tenha ouvido falar do Go, um jogo de tabuleiro chinês tradicional, mas este já foi definido como o único jogo que fica acima do xadrez em termos de complexidade e exigência. Esta terça-feira, o impensável - pelo menos segundo os peritos, que estimavam que o feito demorasse mais dez anos a alcançar - aconteceu: o campeão mundial de Go, o sul-coreano Lee Se-dol, foi vencido pelo computador da Google AlphaGo.

É preciso fazer justiça aos esforços dos dois jogadores: foi uma partida renhida, foram três horas (se Lee Se-dol não tivesse admitido a previsível derrota, seriam três horas, vinte e oito minutos e vinte e oito segundos) de nervos e jogadas arriscadas. Até porque o Go é tão complexo que é quase impossível definir uma estratégia de jogo coerente de início: "Há mais jogadas possíveis no Go do que átomos no universo", define Demis Hassabis, diretor executivo do Google DeepMind (o braço londrino da Google responsável por desenvolver este computador), ao "The Guardian".

Três horas de nervos

O relato que a "Wired" faz da partida confirma esta tensão. Lee começou com a tradicional vénia ao oponente, que neste caso era um computador – quem mexia as peças de acordo com as decisões tomadas pelo AlphaGo era o investigador da DeepMind Aja Huang. Durante o jogo, o único humano em jogo mostrou-se nervoso, algo agitado, partindo logo de início para a ofensiva – uma estratégia que o próprio considera que o prejudicou.

"Estou chocado", admitiu Lee na conferência de imprensa que se seguiu ao jogo. "Não esperava que o computador jogasse de uma forma tão perfeita, não esperava perder." Esta "forma perfeita" é explicada pelo presidente da American Go Association, Andrew Okun, que viajou até Seul, capital da Coreia do Sul, para assistir à partida: "Este é um jogo de carácter. O computador não fica cansado, não se esquece, não se preocupa".

O campeão mundial mostrou-se "chocado" com a própria derrota

O campeão mundial mostrou-se "chocado" com a própria derrota

Kim Min-Hee/ Getty Images

Por esta razão, a vitória do computador, que aconteceu no primeiro de uma série de cinco jogos que vão opor computador a humano (e campeão mundial), é sinal de que se está a fazer História. Para Hassabis, "Go é o jogo mais elegante que os humanos já inventaram, porque de um conjunto de regras simples origina uma complexidade infinita". A grande particularidade do Go face a jogos de tabuleiro como as damas ou o xadrez, jogo em que o campeão mundial Garry Kasparov foi batido por um computador da IBM em 1996, é o grande nível de "avaliação" e "intuição" citado pelos peritos.

Embora Lee, que diz estar "ansioso pelo próximo jogo", se tenha mostrado surpreendido com a derrota, a verdade é que a surpresa não é assim tão grande se tivermos em conta que em outubro também o campeão europeu do jogo, Fan Hui, perdeu para o AlphaGo.

Reagindo à vitória histórica do AlphaGo, que estava a ser desenvolvido desde 2014 pela DeepMind, comprada nessa altura pela Google, Hassabis admitiu estar "muito entusiasmado com este momento histórico" e aproveitou para dar os parabéns a Lee pela sua performance no jogo, dizendo que tem "muito respeito" pelo campeão mundial. A Google espera que esta vitória da inteligência artificial sirva para testar algoritmos que tenham aplicações na vida real.