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“Isto vai ser difícil para ti. Podes chorar”

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O terror de Alicia parece um exemplo inventado para ilustrar os perigos da Internet, mas não é. Durante quatro dias, e quando tinha 13 anos, foi violada e espancada por um pedófilo que conheceu online. Hoje em dia trabalha para salvar as crianças que passam pelo mesmo. E há uma lei em honra dela

Durante quatro dias, Alicia, de apenas 13 anos, teve a certeza de que ia morrer. A sua história acabou em liberdade graças a uma combinação de fatores – os posters que mostravam a cara da menor desaparecida, a atuação do FBI, os segundos bem aproveitados porque quando se salva uma criança todos os segundos contam – mas o terror que viveu permanece muito presente.

Foram quatro dias que se passaram em 2001 mas que nunca mais deixaram de ser parte de Alicia. Para alguns foi pouco e há quem passe por muito pior, para ela foi o necessário para aprender que a dor não é definida pela sua duração e que a violação tem que ver com poder e controlo, mas o amor tem que ver com coisas muito diferentes.

Os piores quatro dias da sua vida

Estávamos no primeiro dia de 2002. Como de costume, Alicia partilhava uma grande refeição com a sua família. A meio do jantar, pediu à mãe para sair da mesa dizendo sentir uma grande dor de barriga, mas o verdadeiro motivo levou-a aos piores quatro dias da sua vida. Alicia, uma adolescente que não gostava do frio ou do escuro, levantou-se para escapar de casa e encontrar com um "amigo" supostamente da mesma idade que conhecera online.

Naquela altura, as pessoas não estavam tão conscientes dos perigos da Internet, mas mesmo assim Alicia sentiu que algo podia correr mal. No testemunho que escreve à BBC, a mulher que agora soma 27 anos diz que naquele momento em que caminhava em direção a um ponto de encontro próximo de sua casa pensou "Alicia, o que estás a fazer? Isto é perigoso e deves ir para casa". Era tarde: momentos depois, entrava para o carro de um homem desconhecido e o pesadelo começava.

A menina ficou rapidamente desorientada. O seu raptor conduziu durante cinco horas, do estado da Pensilvânia, onde ela vivia, até à Virgínia. Quando chegaram, Alicia foi presa por uma trela de cão, despida, espancada e violada com um aviso: "Isto vai ser muito difícil para ti. Podes chorar". O mesmo aconteceu durante os quatro dias que se seguiram, dias em que nunca se pôde vestir, nunca comeu e, como relata agora, pensou nos pais e na morte, que sentia próxima.

No quarto dia, o homem disse-lhe "estou a começar a gostar demasiado de ti. Hoje vamos dar uma volta". Teve a certeza de que ia morrer e passou por vários estados - de pensar no que faria para se defender se fosse uma super-heroína até tentar aceitar, aos 13 anos, a própria morte.

A lei de Alicia

A salvação de Alicia chegou por causa de um erro que o seu violador cometeu. O homem filmou-se a abusar da menina e colocou o vídeo online; depois disso, outro internauta que viu o vídeo reconheceu Alicia dos posters que a davam como desaparecida, reportou o caso ao FBI e os agentes encontraram a casa onde ela continuava nua e presa por uma trela. Alicia foi encontrada às 16h10; vinte minutos depois, o homem chegava a casa – e só podemos imaginar o que poderia ter acontecido se Alicia permanecesse presa no seu sótão.

Hoje, Alicia é uma mulher de 27 anos cheia de planos, que está prestes a acabar o mestrado em psicologia forense e a casar. Mas não esquece aqueles quatro dias: nos estados norte-americanos de Virgínia, Califórnia, Idaho, Kentucky, Texas, Tennessee, Arizona, Hawai e Washington há mesmo uma lei, a lei de Alicia, que já foi aprovada e visa criar fundos públicos destinados à investigação de casos como o dela.

A jovem continua a lutar para aprovar a lei, que pode facilitar o trabalho das Forças para Crimes Contra Crianças na Internet (ICAC, no acrónimo original) nos restantes estados norte-americanos e planeia trabalhar com crianças que passam pelo mesmo e com as suas famílias num futuro próximo.