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Segunda “Grande Selva” da região de Calais evacuada

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YVES HERMAN / Reuters

Enquanto prossegue em Calais, com incidentes quotidianos, o desmantelamento da “Selva” local, inicia-se também esta segunda-feira, a 40 km de distância, em La Grande Synthe, a evacuação do mais insalubre dos campos de refugiados de França. Migrantes são convidados a habitar, na mesma zona, em “chalets” de madeira de 10 m2

A evacuação do paupérrimo campo de La Grande Synthe, ao lado da cidade portuária de Dunquerque, é organizada pela organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) e pela Câmara local, que não desejam a presença da polícia de choque no local, como acontece em Calais.

Ambos pretendem que as operações decorram num clima pacífico e de diálogo e a MSF garante que “nenhum dos migrantes, na maioria curdos iraquianos, será forçado” a sair do triste e insalubre acampamento, que se resume a centenas de tendas de plástico instaladas diretamente na lama de um bosque.

As cerca de 1500 pessoas que aí residem (entre elas 60 mulheres e 74 crianças, segundo os números oficiais) são convidadas a transferir-se para um novo acampamento, construído de raiz numa zona perto da “Selva” onde até agora habitavam.

Com casitas de madeira aquecidas de oito a 10 metros quadrados e com sanitários, água e duches, será o primeiro a nascer em França cumprindo rigorosamente as normas internacionais definidas pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados.

Ao contrário do que acontece na “Selva” de Calais, onde a evacuação e o desmantelamento de tendas e barracas de uma parte do imenso bairro da lata tem decorrido desde há oito dias, com incidentes quotidianos entre batalhões de agentes antimotim e migrantes, a polícia não foi chamada para La Grande Synthe.

Aqui, o novo campo terá capacidade para acolher 2500 pessoas, provavelmente também alguns dos refugiados de Calais que desejem fugir do clima de tensão (e do forte controlo policial) que aí se verifica. “A MSF garante uma estrutura sanitária de qualidade neste campo”, afiança Angélique Muller, coordenadora do projeto.

No total, estarão em Calais, nestes dois acampamentos e em mais alguns completamente selvagens que nasceram recentemente nesta região do norte de França, cerca de 10 mil refugiados e migrantes, todos desejosos de atingirem a Inglaterra, onde dizem ter família e amigos.

Centenas deles continuam a tentar, todas as noites, a travessia clandestina do mar da Mancha, o que provoca confrontos regulares com a polícia, tanto em Calais como em Dunquerque.

A presença destes refugiados não é desejada pelos habitantes da região, designadamente pelos comerciantes que dizem estar arruinados por os turistas ingleses, belgas e holandeses terem deixado de parar na zona. Devido aos incidentes diários, muitas empresas de transportes de mercadorias também a evitam e estão a preferir atravessar a Mancha a partir do porto belga de Zeebruges, que também começa a ser procurado por refugiados vindos clandestinamente do norte da França.

Comerciantes e habitantes de Calais organizam esta segunda-feira uma manifestação em Paris para defenderem o fim dos acampamentos na sua região e reclamarem ajudas financeiras e fiscais ao Governo. “Não podemos deixar morrer Calais, por isso participo na manifestação, queremos também compensações financeiras imediatas”, diz ao Expresso o patrão da cervejaria “Le Centaure”, na “Praça de Armas”, no centro da cidade.

Bocas costuradas: “Agora ouvem-nos?”

A crise migratória tem sido agudizada pela presença na região de grupos neonazis, que atacam frequentemente migrantes e são acusados de, durante a noite, incendiarem barracas e tendas na “Selva” de Calais. As autoridades acusam no entanto militantes anarquistas do grupo “No Borders” de estarem na origem destes incidentes e de provocarem os confrontos violentos com a polícia.

Os migrantes responsabilizam, porém, os neonazis pelos incêndios, como aconteceu na semana passada, quando alguns iranianos (dez no total) coseram a boca com agulhas e linhas e se manifestaram desse modo em frente à polícia, dois dias seguidos, contra a evacuação forçada da “Selva”.

Estes iranianos com a boca costurada acusavam os neonazis de terem incendiado as suas cabanas e exibiam cartazes onde se lia “Vão agora ouvir-nos?” e “Somos seres humanos”. O grupo de iranianos era composto essencialmente por professores, estudantes, mecânicos e comerciantes e pedia também a presença, em Calais, de “um representante das Nações Unidas”.

“Queremos alguém da ONU aqui porque não acreditamos nos franceses, que nos querem levar para muito longe daqui, querem deportar-nos”, disse Mohammed, um iraniano de 43 anos, ao Expresso.

A presença, desde há alguns anos, dos migrantes na região tem favorecido a implantação na região dos nacionalistas da Frente Nacional de Marine le Pen. Na primeira volta das recentes eleições regionais, este partido alcançou 49,1% dos votos, dentro da cidade de Calais.