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Estado turco força controlo de jornal ligado à oposição

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DENIZ TOPRAK / EPA

O “Zaman” é agora dominado pelo Estado, sem que o tribunal que decretou a mudança tenha dado qualquer explicação para o caso. A publicação, até agora uma das mais lidas do país e luigada ao movimento Hizmet, fazia frente às políticas do Presidente Erdogan

Um tribunal turco ordenou que o “Zaman”, um dos jornais mais lidos pelo país, passasse a estar sob a alçada do Estado. A decisão surge sem que haja qualquer explicação do tribunal para o efeito, num país onde a liberdade de imprensa não é um dado adquirido.

A polícia turca entrou nas instalações do jornal na passada sexta-feira, onde dezenas de manifestantes os aguardavam em protesto contra a mudança, e rapidamente tomou conta do local. O editor-executivo e um dos colunistas do diário foram despedidos e o jornal ficará, por enquanto, gerido por dois administradores estatais. O site do periódico encontra-se desde então offline, apesar de a versão em inglês “Today’s Zaman” continuar ativa.

O jornal tinha ligações estreitas ao Hizmet, um movimento pacifista liderado pelo clérigo Fethullah Gülen, crítico do Presidente turco Recep Tayyip Erdogan. O poder turco considera que o movimento não é mais do que uma organização terrorista, culpando Gülen de orquestrar um golpe judicial para retirar Erdogan do poder. Pelas mesmas alegadas ligações, dois outros jornais e duas cadeias televisivas já haviam sido postos sob controlo estatal no ano passado.

Na edição deste sábado, a última antes da mudança editorial, a manchete do “Zaman” dizia “A Constituição está suspensa”, acrescentando que “a imprensa turca vive um dos dias mais negros na sua história”.

Dezenas de funcionários do jornal manifestam-se enquanto a polícia invade a sede do jornal. Há relatos de vários confrontos entre os manifestantes e as autoridades locais

Dezenas de funcionários do jornal manifestam-se enquanto a polícia invade a sede do jornal. Há relatos de vários confrontos entre os manifestantes e as autoridades locais

STRINGER / REUTERS

Desde que passou a ser controlado pelo poder estatal, o editorial mudou substancialmente de tom e o diário passou a adotar um discurso mais pró-governo. Na primeira edição impressa desde a mudança, conta a Al Jazeera, a manchete faz-se com uma visita do Presidente Erdogan a uma cerimónia protocolar, em vez das habituais histórias de oposição ao regime.

Várias organizações pelos Direitos Humanos já condenaram a Turquia. “Este é o mais recente episódio preocupante no constante ataque das autoridades turcas aos media que delas discordam”, refere a Amnistia Internacional. “Ao tentar controlar as vozes críticas, Erdogan está a esmagar os Direitos Humanos.”

A liberdade de imprensa tem sido fortemente atacada no país, com mais de 30 jornalistas – na sua maioria curdos – presos pelo governo do Presidente. E enquanto Ancara defende ter um dos jornalismos mais livres do mundo, um estudo da organização “Reporters Without Borders” coloca o país em 149.º lugar a nível mundial, entre 180 países.