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“Caminha sempre em frente e foca-te na montanha. Não olhes para baixo”

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Mohammed (nome fictício) vivia em Raqqa, no norte da Síria, quando a cidade foi tomada pelo autoproclamado Estado Islâmico (Daesh), em 2014. Foram dias terríficos. Dias de muitas privações, medo e perseguições. Mohammed quis mostrá-lo ao mundo e, por isso, decidiu escrever um diário e publicá-lo na BBC

Helena Bento

Jornalista

“Hoje é sexta-feira, o dia em que costumávamos reunir-nos na rua a conversar depois das orações. Mas isso era antes. Qualquer pessoa que seja agora apanhada na rua a conversar, sem autorização, arrisca-se a ser chicoteada ou acusada de conspiração. Vejo uma multidão reunida numa praça pública. Evito-a, porque é provável que se trate de uma decapitação. Felizmente, é apenas alguém que vai ser chicoteado. A vítima está no meio da multidão. O seu crime, dizem-me, foi ter cometido um acto homossexual”.

São estas as primeiras palavras que constam do diário de Mohammed (nome fictício), um sírio que vivia em Raqqa, no norte da Síria, quando a cidade foi tomada pelo autoproclamado Estado Islâmico (Daesh), em 2014, e proclamada capital administrativa do califado, assim se mantendo até hoje, apesar das tentativas do Governo sírio para a recuperar. O seu diário foi publicado no sábado pela BBC, com o consentimento do autor, cada entrada correspondendo a um vídeo de animação.

Mohammed descreve o seu dia-a-dia na cidade. O barulho ensurdecedor dos aviões que cruzam os céus, os bombardeamentos, as explosões, o choro das crianças, os prédios feitos em cacos, as pessoas feitas em cacos, sem terem para onde ir nem como, a morte do pai e a convalescença lenta da mãe, ambos atingidos durante um ataque aéreo, as perseguições aleatórias e as privações impostas pelo Daesh (“Ei! Tu aí! Não é permitido fumar!”, “Ei! Pára aí! Porque é que a tua mulher não tem os olhos tapados?”), a subida vertiginosa dos preços dos produtos alimentares. Mohammed dá alguns exemplos – o tomate custa mais de 400 libras sírias (1,60 euros), diz, e o arroz custa cerca de 500 libras sírias (aproximadamente dois euros).

Incapaz de continuar a lidar com a situação - “situação de desespero”, como descreve – Mohammed procura um velho amigo e pede-lhe ajuda. Este diz-lhe: “Vive a tua vida sem pensar no presente”. E depois: “Imagina que estás a caminhar sobre uma corda entre duas montanhas. O presente é o que está lá em baixo. Caminha sempre em frente e foca-te na montanha. Não olhes para baixo”. Os conselhos tiveram um efeito positivo em Mohammed. “A partir de agora, vou tentar seguir o conselho dele. Vou tentar seguir sempre em frente até alcançar a outra montanha. Quando lá chegar, o presente já terá passado”.

Mas o presente continua a atormentá-lo. Quando um colega seu, ex-ativista (abandonara o grupo a que pertencia depois de o Daesh ter invadido a cidade, com medo de represálias, tendo a partir daí vivido uma vida pacata com a sua mulher e filha), é decapitado e crucificado em praça pública, à frente da casa da sua mãe, Mohammed decide que chegou o momento de ir embora. Ele sabe é o “próximo”.

Segundo a BBC, enquanto a publicação do diário estava a ser preparada houve várias alturas em que os jornalistas da cadeia televisiva não conseguiram contactar com Mohammed. “Às vezes, passavam cinco ou seis dias até que tivéssemos novamente uma resposta dele”. Foi um processo lento, devido às circunstâncias. Além do nome fictício, nos vídeos não é revelado qualquer detalhe que possa ser associado ao autor do diário, por questões de segurança.

Registadas 135 mortes desde que o acordo de cessar-fogo entrou em vigor na Síria

Apesar de o frágil acordo de cessar-fogo na Síria estar em vigor há mais de uma semana, os bombardeamentos continuam. Menos de 24 horas volvidas sobre a trégua saída do acordo negociado entre Estados Unidos e Rússia, foram registados 15 ataques aéreos russos. Nos dias que se seguiram foram ainda observados combates entre fações opostas. Uma reportagem da CNN dava conta de vários edifícios bombardeados em Alepo por aviões russos. E o Observatório Sírio para os Direitos Humanos reportava a morte de 20 pessoas, entre civis e combatentes, na sequência desses ataques.

São muitas as dúvidas de que se venha a alcançar efetivamente um acordo de paz para a Síria - a nova sessão de negociações entre o Governo e oposição sírios está marcada para a próxima quarta-feira, dia 9 de março - precisamente porque os ataques aéreos não terminaram, apesar das promessas e garantias dadas. Segundo o Observatório Sírio para os Direitos Humanos, desde que o acordo de cessar-fogo entrou em vigor na Síria morreram 135 pessoas, incluindo 32 civis. Um número, apesar de tudo, bem inferior aos registados antes. A trégua teve ainda outro grande mérito, que foi o de permitir o avanço de várias colunas de ajuda alimentar e assistência humanitária para as comunidades cercadas pelas forças do regime, pelos rebeldes anti-Assad e combatentes jiadistas.