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Este perfil de Hitler no “The New York Times” há 94 anos soa familiar?

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MIKE STONE / REUTERS

“The Wall Street Journal” desenterrou o primeiro artigo que o NYT escreveu sobre o então recém-nomeado líder do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães e as semelhanças com Donald Trump são assustadoras

"Um novo ídolo popular, reacionário, com poderes extraordinários para dominar multidões a seu bel-prazer, que exige um governo forte para uma Alemanha unida." Assim foi descrito Adolf Hitler em 1922, num artigo do "The New York Times" pouco depois de o alemão ter assumido a liderança do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães.

No artigo, o diário explica que "o programa de Hitler", que consiste em "meia dúzia de ideias negativas vestidas de generalidades", "tem menos interesse do que a sua personalidade e movimentos". "É contra os judeus, os comunistas, os bolcheviques, o socialismo marxista, os separatistas, os altos custos de vida, as condições atuais, o fraco governo de Berlim e contra o Tratado de Versalhes. Defende apenas uma Alemanha forte e unida sob um governo forte."

O artigo foi desenterrado esta semana pelo jornalista do "The Wall Street Journal" Jon Ostrower, dias depois de a colunista conservadora do "The Washington Post" Jennifer Rubin ter classificado Donald Trump de "fascista". O objetivo de Ostrower era mostrar a abordagem cândida que foi feita de um homem que viria a ser um dos mais sanguinários ditadores de que há memória na História mundial — e como não foi dada atenção suficiente aos perigos representados pelo populismo do alemão, da mesma forma que não está a ser dada agora ao populismo do atual líder da corrida à nomeação republicana.

Nesse perfil de Hitler datado de há 94 anos, é ressaltado o seu "raro dom oratório que fascina audiências independentemente da sua orientação política ou credo religioso". "O seu método é simples: primeiro, propaganda, segundo, organização eficiente", lê-se ainda. "Ele conduz pessoalmente encontros de revivalismo patriótico com esse propósito."

Qualquer semelhança com 2016 não será pura ficção

Podia trocar-se "os judeus, os comunistas, os bolcheviques, o socialismo marxista, os separatistas" pelos muçulmanos, mexicanos, imigrantes sem documentos e os que se manifestam em comícios de campanha e estaríamos a falar de Donald Trump. Podia trocar-se Hilter por Trump na frase "o programa de Hitler tem menos interesse do que a sua personalidade e movimentos" e tudo estaria certo.

Ao longo da corrida para poder disputar a presidência dos EUA em novembro, o magnata populista tem efetivamente baseado o seu programa político numa "meia dúzia de ideias negativas vestidas de generalidades" e defendido alto e bom som as suas políticas anti-imigração, em linha com o que é descrito sobre Hitler.

Em julho disse que "todos os mexicanos são violadores e homicidas". Meses depois declarou que, se for eleito Presidente, irá juntar os 11 milhões de imigrantes clandestinos e deportá-los dos Estados Unidos; em Dezembro foi comparado com o ditador nazi por prometer criar uma base de dados sobre a população muçulmana do país para obrigar esses cidadãos a usar identificações explícitas de que são muçulmanos, tal como Hitler obrigou os judeus a usarem estrelas de David como identificação clara da sua "inferioridade".

O perigo da ambição cega

Entre as descrições de Hitler no artigo de há quase 100 anos, um parágrafo salta ainda mais à vista pelos paralelismos que sugere. "Várias fontes bem informadas e de confiança confirmam que a ideia de que o antissemitismo de Hitler não é tão genuíno nem violento quanto parece e que ele está meramente a usar propaganda antissemita como isco para agregar massas de seguidores e mantê-los excitados, entusiasmados e prontos para quando a sua organização [política] estiver aperfeiçoada e for suficientemente poderosa para ser eficaz nos seus objetivos políticos."

Há um ano, o próprio "The New York Times" já tinha desenterrado o artigo em questão, escrevendo que, "em novembro de 1922, deu aos seus leitores um primeiro vislumbre de Hitler, num perfil que acertou em muitas coisas [...] mas também falhou num ponto crucial — apesar do que as "várias fontes bem informadas e de confiança" disseram ao Times no terceiro parágrafo a contar do fim, o seu antissemitismo era tão genuíno e violento como soava."

Com cada declaração explosiva e xenófoba do pré-candidato americano às presidenciais, a população não só não o critica como o apoia cada vez mais. Em setembro, uma sondagem da Fox News indicava que 44% dos americanos acredita que Trump "diz as coisas como elas são" e que é disso que os EUA precisam num presidente. O número é assustador e, meses depois de ter sido revelado, mais assustadoras são as consecutivas vitórias da estrela de reality shows nas votações estatais que já tiveram lugar.

Nas suas memórias, publicadas em 1987 sob o título "Art of the Deal", Trump escreveu que brinca "com as fantasias das pessoas" e que "as pessoas podem nem sempre pensar em grande, mas ainda assim podem ficar muito entusiasmadas com aqueles que o fazem. É por isso que uma pequena hipérbole não magoa ninguém".

Considerando o que aconteceu anos depois de o NYT ter pintado Hitler como um homem relativamente inofensivo que apenas dizia o que o povo queria ouvir para cumprir as suas ambições políticas, até essas palavras escritas por Trump há 29 anos podem ser um alerta. Sobretudo tendo em conta a recente postura de Trump face ao apoio do Ku Klux Klan e as ligações do seu pai a esse grupo racista.

O artigo original do NYT sobre Hitler, publicado em 1922, pode ser lido aqui