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Cardeal de Ballarat sobre pedofilia na Igreja: “Concordo que devia ter feito mais”

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ANDREAS SOLARO / Getty

Os crimes de Ballarat “destruíram a Igreja Católica”. 40 anos depois, o cardeal George Pell, acusado de subornar as vítimas em troca do seu silêncio, admite responsabilidades numa audiência em Roma

"Concordo, com a experiência de 40 anos passados, que devia ter feito mais." As palavras foram proferidas pelo cardeal australiano George Pell, testemunhando numa audiência da comissão real de abuso sexual de crianças - uma espécie de tribunal da Igreja Católica - sobre o caso de Ballarat. Uma dezena de vítimas ouviu com atenção o reconhecimento por que esperava há anos - cerca de 40 não o puderam fazer, porque cometeram suicídio na sequência dos abusos.

Recuemos até à década de 1960. A cidade australiana de Ballarat era um dos palcos principais para a pedofilia na Igreja Católica, mas (quase) ninguém sabia. No caso mais flagrante, de 1960 até 1980, o padre Gerald Risdale, que atualmente está preso, abusou por 130 vezes de crianças que nalguns casos tinham apenas quatro anos. O seu sobrinho David foi uma dessas crianças.

O tempo passou. David Risdale é agora o responsável pelo grupo de sobreviventes dos abusos que voaram esta semana até Roma para ouvir o testemunho do cardeal Pell, que na altura era um sacerdote assistente em Ballarat. Pell, o membro mais antigo da Igreja Católica na Austrália e um dos conselheiros mais importantes do Papa Francisco, aceitou testemunhar na comissão real que investiga este caso, mas recusou-se a viajar até a Austrália, alegando problemas de saúde.

Na sessão que decorreu esta quinta-feira, o cardeal admitiu que "estes escândalos têm sido catastróficos para a Igreja", com uma dezena de vítimas a assistir a esta espécie de confissão. Sentado na plateia estava David Risdale, que acusa o cardeal de o ter subornado em criança para não contar os abusos que estava a sofrer. Lá fora, um homem mostrava a fotografia das suas filhas – ambas vítimas de abuso sexual em Ballarat – e gritava: "Esta é a família perfeita que a Igreja Católica destruiu", conforme relata a BBC.

Depois da audiência, o cardeal encontrou-se com as vítimas e ouviu "as suas histórias de sofrimento", num momento que descreveu como "difícil, honesto e por vezes emocionante". Questionado sobre o motivo para ter demorado 40 anos a admitir o que aconteceu em Ballarat, Pell justificou: "Na altura as pessoas tinham uma atitude diferente. Não havia informações específicas sobre a atividade e a sua seriedade".

O grupo de vítimas presente em Roma, que ali chegou acompanhado por psicólogos com o dinheiro reunido através de uma plataforma de crowdfunding, já pediu para ter um encontro privado com o Papa Francisco antes de regressar à Austrália. Até agora, o Vaticano ainda não respondeu ao pedido.