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Islamita julgado na Haia por ataques a mausoléus em Timbuktu

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É o primeiro caso sobre destruição de património cultural que chega ao Tribunal Penal Internacional

Luís M. Faria

Jornalista

"O que está em causa aqui não são só paredes e pedras", explicou a procuradora. "É a destruição de monumentos históricos insubstituíveis e ataques sérios contra a dignidade e a identidade de povos inteiros." Faotu Bensouda referia-se à destruição de mausoléus e uma mesquita em Timbuktu. Em 2012, esta cidade do Mali foi tomada por islamitas, que começaram a destruir o seu património histórico com pás e picaretas. Agora, um dos alegados responsáveis pela destruição compareceu no Tribunal Penal Internacional, na cidade da Haia (Holanda).

A primeira audiência, iniciada na terça-feira, foi para confirmar formalmente a identidade do réu e as acusações que sobre ele recaem. É a primeira vez que o tribunal se ocupa desse tipo de caso. Ahmad Al Faqi Al Mahdi, o suspeito, é um extremista islâmico de etnia tuaregue. Segundo a procuradora, terá conduzido e estado envolvido na destruição dos edifícios referidos, entre os quais pelo menos um que se encontra na lista dos monumentos protegidos da UNESCO. Líder da Hisbah, ou brigada de costumes, Al Mahdi era membro do grupo Ansar Dine e estava ligado a dois grupos armados.

Ele não parece negar aquilo de que o acusam. Segundo o seu advogado, que lhe chama "um homem inteligente, um homem razoável, um intelectual erudito", Al Mahdi atacou as "coberturas" dos mausoléus porque lhes queria restituir a "pureza". Tratou-se simplesmente de rejeitar uma forma de idolatria, a adoração dos santos. "Estamos a falar de duas visões do mundo que estão em contradição", disse o advogado.

Para a acusação, que realça o facto de as estruturas em questão existirem há séculos e estarem intimamente associados à cidade na consciência universal, os islamitas quiseram obliterar a identidade ancestral das populações locais. Além dos mausoléus e das mesquitas, Timbuktu conservava uma coleção de centenas de milhares de manuscritos históricos, parte dos quais também foram desapareceram com o vandalismo.

Com apoio militar francês, os islamitas acabaram por ser expulsos da cidade, e a UNESCO criou um fundo especial para recuperar e preservar os seus locais históricos. Al Mahdi, por sua vez, foi entregue ao Tribunal pelas autoridades da Nigéria em 2015, sendo depois transferido para a Haia.