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Migrantes querem fugir da “Selva” de Calais. “Propõem-nos uma prisão”

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Mohammed, refugiado iraniano, 43 anos, mostra o local onde vive há cinco meses. Na porta, uma cruz suástica foi pintada pelos manifestantes

DANIEL RIBEIRO

Novos incêndios de barracas marcaram a noite de terça para quarta-feira na zona sul da “Selva” de Calais, que continua a ser desmantelada. Mas muitos migrantes recusam as propostas francesas de alojamento e fogem. “Propõem-nos uma prisão”, diz ao Expresso um afegão

Chove e está muito frio nesta terça-feira ào fim da tarde na zona sul do imenso bairro da lata de Calais, conhecido como a “Selva”.

Mohammed, um iraniano de 43 anos, mostra a desoladora barraca onde vive há cinco meses. Tem uma cruz suástica pintada na parte interior da porta e nem com a ajuda de um tradutor consegue explicar a razão da pintura. Imagina-se que está ligada ao facto de alguns militantes esquerdistas e refugiados evocarem "uma deportação", comparando deste modo a evacuação forçada, em curso dos residentes da “Selva”, com as operações contra os judeus efetuadas pelos nazis durante a II Guerra Mundial.

O refugiado iraniano diz querer chegar a Inglaterra a todo o custo – “tenho lá família”, garante – e não aceita ir viver para os “centros transitórios e de registo”, espalhados por toda a França, que os franceses lhe propõem. Parece claro: ele poderá vir a ser brevemente mais um que vai fugir “para a natureza” – expressão que se ouve muito por estes dias em Calais – à semelhança do que muitos fizeram desde que começaram as operações de desmantelamento das barracas.

Mohammed não é homem de muitas palavras, mas mostra o interior caótico da sua barraca de madeira. Calçado enlameado, roupas velhas e alguns tachos, canecas, pratos, colheres, cântaros de plástico e muitos cobertores, tudo amontoado no reduzido espaço com soalho de tábuas assente na lama do acampamento. “Vivemos aqui dois iranianos”, diz.

A “prisão”

Um pouco mais longe, ao longo da chamada "Avenida Queen Elizabeth", que está neste dia cheia de charcos, lama e detritos, Rahman-Jan, um refugiado afegão de 25 anos, é muito mais falador do que o iraniano. “Os franceses querem espalhar-nos pelo país, pôr-nos longe do mar da Mancha e nós não aceitamos”, diz ao Expresso.

O afegão parece muito politizado, tem um discurso elaborado e exprime-se em francês deficiente mas compreensível. “Os franceses dizem também querer levar-nos para a zona dos contentores que eles construíram recentemente e que apenas tem capacidade para receber 1500 pessoas; ora, como vivem aqui sete mil pessoas e, só nesta zona sul, cerca de 3500, é evidente que o que eles realmente pretendem é espalhar-nos pela França toda”, exclama.

O cenário da “avenida Queen Elizabeth”, em plena selva de Calais, é por estes dias desolador

O cenário da “avenida Queen Elizabeth”, em plena selva de Calais, é por estes dias desolador

DANIEL RIBEIRO

Rahman garante que a vida no bairro dos contentores “é impossível”. “Oficialmente ,cada contentor tem capacidade para albergar 12 pessoas, mas já há alguns com 20 ou 30, as pessoas dormem umas em cima das outras”.

Fala ao Expresso com um membro da associação humanitária “Auberge des migrantes” ao lado e o que mais sublinha é que, para ele, esta proposta francesa é, na realidade, a de uma vida “na prisão”. “Aqui, na ‘Selva’ vivemos mal mas somos livres, podemos cozinhar, entrar e sair à vontade, temos restaurantes, mercearias e locais de convívio; na zona dos contentores não há nada, tudo é controlado pela polícia e somos registados com as impressões digitais logo à chegada, é uma prisão”.

E sobre o pedido de asilo em França, que propõem os franceses aos refugiados? “Não podemos fazer isso, porque se pedirmos asilo em França não poderemos a seguir fazer outro pedido de asilo na Grã-Bretanha; andámos muito, corremos muitos perigos para aqui chegar e estamos quase com a costa inglesa à vista, não vamos desistir agora”, responde.

“Aqui, na “Selva”, vivemos mal mas somos livres”, diz um afegão de 25 anos, residente no local

“Aqui, na “Selva”, vivemos mal mas somos livres”, diz um afegão de 25 anos, residente no local

DANIEL RIBEIRO

Mais um que parte para a “natureza”

Um outro afegão, que entretanto se junta à conversa e que recusa ser identificado, confirma que a vida na clandestinidade continuará a ser a sua opção.

Diz que a sua cabana foi destruída pelos operários, com a ajuda da polícia, na manhã desta terça-feira. Onde vai dormir esta noite? “Tive de fugir de lá, agora vou para a cabana de um amigo, depois verei”, informa, dando a entender que também ele está disposto a fugir para “a natureza” mantendo-se na região, mesmo vivendo de forma selvagem, para dia sim dia não tentar atravessar clandestinamente a Mancha.

“É um drama, mas tem de ser. Não sabia que a França tratava assim os refugiados, de forma tão desumana e policial”, desabafa.

Na manhã desta quarta-feira, o Sol brilha em Calais. Na “Selva”, as operações de destruição de cabanas prossegue com forte presença de forças policiais antimotim dentro do bairro da lata. Durante a última noite, mais algumas cabanas foram incendiadas pelos residentes para protestar contra as evacuações.

A tensão persiste e é palpável em toda a cidade. É assim desde a passada segunda-feira quando eclodiram violentos confrontos com a polícia em tumultos durante os quais camiões e carros com turistas foram também apedrejados perto do porto da cidade, o maior de passageiros de França.