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500 filmes depois, finalmente um Óscar! Ennio Morricone agradeceu em italiano

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MARK RALSTON/ Getty Images

O veterano compositor de música para cinema, que atingiu estatuto lendário em Hollywood mas nunca deixou de viver em Roma, recebeu por fim a estatueta, após cinco nomeações anteriores

Luís M. Faria

Jornalista

“Grandíssimo maestro, finalmente!”. Assim felicitou o primeiro-ministro italiano, Matteo Renzi, um dos seus contemporâneos mais ilustres, o compositor Ennio Morricone, que no passado domingo (madrugada de segunda-feira em Lisboa) recebeu em Hollywood o Óscar pela melhor banda sonora. Aos 87 anos e com 500 filmes no cadastro, Morricone nunca tinha ganho esse prémio. Conseguiu-o finalmente, após cinco nomeações anteriores (“Dias do Paraíso”, “A Missão”, “Os Intocáveis”, “Bugsy” e “Malena”), e com um filme de um realizador com o qual tinha dito há anos que não queria trabalhar.

Quentin Tarantino convenceu-o a mudar de ideias, e ainda bem para ambos. O filme agora premiado, “Os Oito Odiados”, estava igualmente nomeado nas categorias de melhor atriz secundária e melhor cinematografia, mas não venceu em nenhuma delas. Em contrapartida, o Óscar de Morricone proporcionou um dos momentos memoráveis da cerimónia. Como o músico não fala inglês – faz questão de se exprimir sempre na sua língua original, mesmo quando é entrevistado por órgãos de comunicação internacionais – fez o discurso em italiano, enquanto um intérprete traduzia.

Agradeceu a todos os outros nomeados, e em especial a John Williams, o compositor mais famoso de Hollywood, que este ano estava nomeado pelo seu trabalho no último filme da Guerra das Estrelas. A audiência aplaudiu de pé. Morricone já havia recebido um Óscar honorário pela sua carreira em 2007, mas o triunfo na secção competitiva dos Óscares deve ter tido um sabor único para ele, até pelo facto de vir finalmente corrigir uma injustiça que durava há demasiado tempo.

Os western spaghetti

Ennio Morricone nasceu a 10 de novembro de 1928 em Roma. Filho de um músico, tornou-se trompetista em bandas de jazz e estudou música na prestigiada Academia de Santa Cecília. O seu objetivo era tornar-se compositor de música erudita, mas, conforme explicou mais tarde, tinha de viver. Sempre teve um dom, como mostra o facto de ter escrito música desde os seis anos. Mas cedo começou a fazer arranjos e a trabalhar no teatro, bem como a colaborar com cantores, italianos e outros. Gianni Morandi, Edoardo Vianello, Paul Anka, Françoise Hardy, Mireille Mathieu e Demis Roussos são alguns dos nomes a que ficou associado.

A par com os géneros populares, ele mantinha atividade na música de vanguarda, como membro de um grupo chamado “Nova Consonança”, que chegou a publicar em editores como a Deutsche Grammophon e a RCA. Mas a sua estreia no cinema aconteceu logo nos anos 50, em produções italianas. Após uma série de comédias – género a que nunca renunciou – encontrou o seu destino na pessoa de um velho amigo de infância, Sérgio Leone.

Os dois tinham sido colegas de escola, e em 1964, décadas depois, fizeram juntos “Por um Punhado de Dólares”, o primeiro de uma série de três western-spaghettis filmados em Espanha e protagonizados pelo ator norte-americano Clint Eastwood. Inovadores em vários aspetos, incluindo a integração orgânica das cenas e da música (onde Morricone utilizava assobios, uivos de coiote, outros sons naturais) deram uma contribuição decisiva para espalhar esse género cinematográfico.

“Foi um roubo!”

Nas décadas seguintes, ele passou a trabalhar frequentemente com realizadores de Hollywood, incluindo William Friedkin, Terence Malick, Brian de Palma, Oliver Stone e Roland Joffé. Duas das suas partituras realmente notáveis são as que fez para “Era uma Vez na América”, o belíssimo épico de Sergio Leone, servido por música elegíaca de qualidade assombrosa, e “A Missão”, um filme de Joffé sobre um conflito envolvendo missionários espanhóis e tribos nativas do Paraguai. Esta última devia ter-lhe valido umÓscar em 1986, e ele achou que fora vítima de uma injustiça. Numa entrevista dada ao jornal britânico “The Guardian” anos depois, disse: “Foi um roubo! Mas, claro, se dependesse de mim, todos os dois anos ganhava um Óscar”.

Na mesma entrevista, ele contava que lhe tinham oferecido uma villa em Hollywood, mas preferira continuar a viver em Itália. “Pode encarara a minha decisão como um fator distintivo ou como uma limitação”. E explicava que uma das coisas de que não gostava em Hollywood era o hábito que muitos compositores de filmes tinham, de subcontratar trabalho a arranjadores profissionais.

“Eu inventei a fórmula ‘música composta, arranjada e conduzida por Ennio Morricone. Bernard Herrman [um célebre compositor de Hollywood, colaborador de Hitchcook em ‘Vertigo’, por exemplo] costumava escrever todas as suas partituras eles próprio. Como faziam Bach, Beethoven e Stravinsky”. Acrescentava: “Vá ver o que Bach compôs e quanto Mozart escreveu em 33 anos, e verá que estou praticamente desempregado comparado com eles”.

A entrevista foi dada em 2000, a propósito de “Malena”, um filme do realizador Giuseppe Tornatore, seu parceiro artístico frequente (outra obra em que os dois colaboraram foi “Cinema Paraíso”). Também nesse ano ele foi nomeado para um Óscar e não ganhou. Entretanto passaram 16 anos, e Morricone continuou a trabalhar. Desempregado não deve ficar tão cedo. Depois do prémio agora recebido, as ofertas devem ser muitas, e pelo que lhe diz respeito ainda não decidiu quando vai parar.