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“É esta a vossa paz?” Desespero e violência na “Selva”

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YOAN VALAT / EPA

Depois de uma tarde e noite de confrontos, as autoridades francesas continuam esta terça-feira a desmantelar a zona sul do imenso bairro da lata dentro da “Selva” de Calais. Há reforço de polícias de choque

Os trabalhos de demolição de cabanas e barracas prosseguiam na manhã desta terça-feira na zona sul da “Selva”, como é chamado o bairro da lata de Calais.

Fortes cordões de agentes da polícia antimotim protegiam de perto os operários contratados pelas autoridades para a operação, que deverá levar à saída de 800 a mil migrantes da “Selva”, segundo os números das autoridades (no total, este bairro da lata albergará entre 4000 e 7000 pessoas, segundo os números da prefeitura ou das associações humanitárias).

“É esta a vossa paz?”

Os polícias, equipados com capacetes, viseiras, escudos e bastões, cercavam também completamente um grupo de uma centena de refugiados que assistiam, em triste silêncio e sob manifesta tensão, às demolições. Estes aqueciam-se à volta de duas grandes fogueiras e um deles exibia um cartaz com os números de pessoas que serão desalojadas nesta zona sul do campo, segundo a contagem efetuada por associações que os apoiam: 3455 no total, entre os quais 145 famílias, 169 mulheres e 445 crianças.

PASCAL ROSSIGNOL / Reuters

Noutro cartaz, que um jovem mostrava no telhado de uma cabana, junto aos polícias, lia-se: “É esta a vossa paz?”

O Governo francês tinha prometido uma operação baseada no diálogo e sem recurso à força, mas tudo descambou em violência logo esta segunda-feira, o primeiro dia das demolições. Durante toda a tarde e grande parte da noite, a “Selva” foi palco de violentos confrontos com a polícia, e mesmo carros de turistas que pretendiam chegar aos ferryboats foram atacados por manifestantes.

As autoridades acusam os anarquistas “No Borders”, que defendem o fim das fronteiras, de estarem na origem da violência, mas facto é que muitos jovens migrantes e refugiados, cerca de 300 segundo estimativas, participaram nos tumultos.

Depois do caos vivido na véspera, com diversas cabanas incendiadas e explosões de botijas de gás que se encontravam no seu interior, a “Selva” acordou esta terça-feira sob tensão e muito desespero.

“Isto vai derrapar de novo”

Junto a uma das fogueiras, um iraniano de cerca de 30 anos, que recusou ser identificado e escondia a cara com um grande cachecol, explicou desta forma a situação ao Expresso: “Nós não queremos ser desalojados, queremos ir para Inglaterra porque todos temos lá irmãos ou primos. O que os franceses nos propõem é espalhar-nos pelo país, por Bordéus e outras terras, e nesse caso eu prefiro regressar ao Irão. Mas há gente ainda mais desesperada do que eu, os sírios, os afegãos, os iraquianos, os africanos... alguns já estão a fugir para outros sítios ao longo da costa”.

LAURENT DUBRULE / EPA

A uma dezena de metros, os cordões policiais apertavam o cerco, formando um circulo à volta do pequeno ajuntamento de migrantes, todos homens relativamente jovens. A tensão começava a crescer e Magali, miltante da associação Utopia 56 previa o pior: “Isto vai derrapar de novo, ou à tarde ou nos próximos dias, a violência recomeça”.

“É incrível, chegam funcionários e polícias às cabanas e dão uma hora às pessoas para saírem de lá e irem para locais de acolhimento provisório, onde ficarão completamente rodeadas por polícias”, explica um membro da organização “Auberge des migrants”.

“O Governo tinha prometido uma evacuação sem recurso à força e o que está a acontecer é que os migrantes estão a fugir, a dispersar-se por outras zonas, ficando numa situação ainda mais vulnerável”, acrescenta Magali.

Até agora, segundo informações recolhidas no local pelo Expresso, têm sido apenas famílias com crianças que aceitam as propostas das autoridades para passarem a viver na “Selva-chique”, uma zona de habitações em contentores recentemente inaugurada.

Mas este novo bairro, localizado numa das extremidades da insalubre “Selva” de cabanas e tendas, apenas tem capacidade para acolher 1500 pessoas e a maioria dos migrantes desconfia que, na realidade, o que o governo de Paris pretende é dispersá-los pelo território para os afastar de Calais e, desse modo, acabar com o seu sonho de chegarem à Grã-Bretanha.