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Com Trump a liderar na Superterça-feira, republicanos ponderam apoiar... Hillary Clinton

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reuters

Duas peças do “The New York Times” estão a concentrar atenções de republicanos e democratas a poucas horas de 13 estados e do território da Samoa Americana escolherem os seus candidatos às presidenciais de 8 de novembro. Num dos artigos, o líder da maioria republicana do Senado não olha a meios para destruir a candidatura de Donald Trump. O outro é um capítulo de uma saga que ainda não terminou e que, dizem alguns, poderá fazer tremer o líder da corrida republicana

Este fim de semana, o "The New York Times" publicou uma reportagem sobre os bastidores da corrida republicana, num artigo intitulado "Dentro da missão desesperada do Partido Republicano para travar Donald Trump", onde este parágrafo salta à vista:

"[Mitch] McConnell já começou a preparar os senadores para a possibilidade de uma nomeação de Trump, assegurando-lhes que, se tal os ameaçar na eleição geral, podem apostar em anúncios negativos sobre Trump para criar um espaço entre ele e os senadores republicanos que procuram a reeleição. McConnell já elevou a possibilidade de tomar uma derrota de Trump como garantida e descrever um Senado republicano aos eleitores como uma necessidade para manter a Presidente Hillary Clinton na linha."

Na prática, o que isto significa é que o líder da atual maioria republicana no Senado está disposto a afundar o candidato presidencial do próprio partido, dando força à rival democrata assim que o processo de primárias estiver encerrado e concentrando todos os esforços nas campanhas dos republicanos que já representam os seus estados na câmara alta do Congresso norte-americano, e que buscam a reeleição em novembro — por forma a garantir que continuam a controlar o órgão legislativo. É, provavelmente, a medida mais inédita, drástica e desesperada de que há memória em ano de eleições norte-americanas.

O cenário atual não pede menos que isso. Com Marco Rubio, o único "candidato do sistema" dentro do Partido Republicano, a afundar-se — e a fazer campanha de bastidores por uma "brokered convention" como derradeira boia de salvação da sua candidatura e do próprio partido — e com as sondagens a preverem uma vitória estrondosa de Donald Trump nas primárias e caucus desta Superterça-feira, os republicanos estão a ficar sem saída.

Todos o sabem, incluindo Hillary Clinton, que na madrugada desta terça-feira (hora portuguesa), em plena véspera das primárias e caucus mais importantes do ano, se concentrou não em atacar o seu rival direto, mas sim Trump. É uma manobra estratégica que tem em conta o facto desta terça-feira ser o dia do vai ou racha para Bernie Sanders.

Gravação em off, a kriptonite de Trump?

A poucas horas de começarem as votações simultanêas que poderão já ditar os dois candidatos que vão disputar a presidência, as mais recentes sondagens da CNN/ORC apontam para uma série de vitórias de Trump, que poderá angariar 49% dos 595 delegados eleitorais em disputa. Do lado democrata, Clinton angaria 55% das intenções de voto contra 38% para Bernie Sanders.

Entre os esforços desenfreados dos republicanos para evitarem a nomeação de Trump, até uma entrevista off the record de conteúdo para já desconhecido está a ganhar protagonismo. Novamente com o "The New York Times" no epicentro das notícias, Marco Rubio e o senador pelo Texas Ted Cruz estão a pressionar o rival Trump para que autorize o jornal a publicar essa entrevista.

Eis o caso, apresentado pelo site BuzzFeed: há quase dois meses, a 5 de janeiro, Trump esteve na redação do diário nova-iorquino para uma entrevista, parte dela on the record, numa tentativa de convencer o jornal a dar-lhe o seu apoio formal. Até aí tudo normal: é comum isto acontecer em ano de eleições. (O "NYT" acabaria por apoiar o republicano John Kasich, a par da democrata Hillary Clinton).

O que agora é noticiado é que, durante a parte dessa entrevista conduzida sob sigilo, Trump terá dado a entender que está disposto a abdicar das suas propostas populistas e anti-imigração, que têm atraído tantos eleitores às urnas, se isso se provar mais frutuoso.

"A análise mais otimista do candidato presidencial Trump é que ele simplesmente não acredita em assumir posições, exceto aquelas que se adotam com objetivos estratégicos durante as negociações de um acordo", escreveu a colunista do NYT Gail Collins este sábado. "Portanto, é óbvio que não consegue explicar como é que vai deportar 11 milhões de imigrantes sem documentos, porque essa será a primeira premissa de uma futura sessão negocial de proporções monstruosas."

Após a publicação desse artigo, o diretor do BuzzFeed, Ben Smith, citou fontes familiarizadas com a gravação da entrevista a Trump, que não só lhe explicaram que esta "já atingiu um estatuto quase mítico no 'NYT'" como lhe disseram que a segunda frase daquele parágrafo assinado por Collins tem por base mais do que especulação — reflete, isso sim, algo que Trump terá dito sobre a sua "flexibilidade" na postura anti-imigração até agora intransigente.

Contactado por Smith para apurar se o conteúdo da gravação poderia funcionar contra Trump como a kriptonite contra o Super-Homem, Andrew Rosenthal, responsável pela página de editoriais do "NYT", disse-lhe que não pode comentar os conteúdos off the record, mas que "se [Trump] quiser pode ligar-nos e pedir-nos que divulguemos a transcrição; ele é livre de o fazer e depois nós decidiremos o que fazer".

Por essa razão, os rivais do magnata Rubio e Cruz, bem como o ex-candidato presidencial Mitt Romney, já pediram a Trump que demonstre que não tem nada a esconder e que ordene a publicação da entrevista com o jornal na sua totalidade.

Trump, cujo envolvimento com o Ku Klux Klan parece não melindrar quem o apoia, ainda não falou sobre o assunto. Mas perante o facto de que apenas uma coisa une os eleitores que apoiam o magnata — sede de autoritarismo — é possível que só provas concretas de que não fala a sério quando promete expulsar imigrantes funcionem como prego no caixão da sua candidatura.