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A Superterça-feira que pode decidir tudo nos EUA

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Treze estados e o território da Samoa Americana irão a votos na madrugada desta quarta-feira, distribuindo 1460 delegados (865 democratas e 595 republicanos). Quem vencer “ganhará um balanço importante para a vitória”

Nos Estados Unidos, as manhãs televisivas de domingo estão repletas de análise política, do Meet the Press (NBC) ao Face the Nation (CBC), do This Week (ABC) ao State of the Union (CNN).

Em ano de presidenciais, tais programas servem para os candidatos à nomeação dos dois partidos retocarem a mensagem e lançar o mote para a corrida que se segue.

Por isso, no passado domingo quase todos apareceram para comentar o estado da campanha a dois dias da Superterça-feira, momento decisivo para a escolha dos candidatos democrata e republicano às presidenciais de 6 de novembro.

Treze estados e o território da Samoa Americana irão a votos na noite de terça para quarta-feira, distribuindo 1460 delegados (865 democratas e 595 republicanos). Quem vencer “ganhará um balanço importante para a vitória”, diz ao Expresso Joel Aberbach, professor de Ciência Política na Universidade da Califórnia e ex-conselheiro da Casa Branca.

“No caso democrata, parece que o muro invisível do sul protegerá Hillary. A vitória esmagadora na Carolina do Sul foi um prenúncio disso mesmo. No caso republicano, pasme-se, Trump poderá vencer em todos os estados”, afirma o especialista.

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A incredulidade de Aberbach tem a ver com as sucessivas tiradas bombásticas de Trump. No passado domingo, no “State of The Union”, o magnata nova-iorquino voltou a atacar depois de questionado sobre David Duke, o antigo líder do Klu Klux Klan (KKK), que afirmou que era “traição” votar contra Trump: “Eu não sei nada sobre David Duke ou racismo branco nos Estados Unidos. Por isso, não vou responder sobre algo que desconheço”.

Meio incrédulo, o responsável pelo programa, Jack Tapper, perguntou-lhe: “Nós estamos a falar de David Duke, do Klu Klux Klan... O candidato encolheu os ombros e garantiu: “Honestamente, não conheço David Duke”.

A polémica saltou para o Twitter e dali regressou aos programas da manhã, com os outros candidatos a reagirem à suposta ignorância de Trump sobre o KKK. “O primeiro Presidente negro não será sucedido por alguém que recusa condenar o Klu Klux Klan”, disse Bernie Sanders, o rival de Hillary Clinton no campo democrata.

Do lado republicano, Marco Rubio, que luta por ser o nome escolhido pelo núcleo duro do Partido Republicano para fazer face a Trump, considerou que as palavras do rival eram simplesmente “prova de que estamos perante um charlatão”.

Não é a primeira vez que o KKK se cruza no caminho de Donald Trump. No sul dos Estados Unidos foram detetados alegados membros da organização a distribuir propaganda racista à entrada dos comícios do candidato.

Sobre este assunto, a organização de Direitos Humanos Southern Poverty Law Center alerta para um ressurgimento daquele grupo, que ainda este domingo se manifestou na cidade californiana de Anaheim. A iniciativa acabou com quatro dos seus membros esfaqueados.

Uma sondagem Economist/You Gov realizada em janeiro revelou que cerca de 20% dos apoiantes de Trump consideram que o fim da escravatura foi uma “má ideia”. O mesmo estudo indicou que um terço daquele eleitorado considera “boa ideia” os campos de trabalhos forçados criados nos EUA para japoneses, durante a Segunda Guerra Mundial.

“A verdade é que estamos fartos de ouvir Donald Trump dizer as coisas mais incríveis e depois subir nas sondagens. Ele é um fenómeno à parte. Qualquer político que tivesse o azar de dizer metade estaria fora da corrida”, explica ao Expresso Susan Del Percio, conselheira do Partido Republicano”.

Momento decisivo

A Superterça-feira poderá ser fundamental para Hillary Clinton e Donald Trump, respetivamente os favoritos à nomeação democrata e republicana. No campo conservador, estarão em disputa metade dos delegados necessários para uma vitória (1237), enquanto os liberais disponibilizam um terço – note-se que o Partido Democrata exige um total de 2383 delegados, de um total de 4765.

A maioria das sondagens indica que a antiga primeira-dama poderá ter mais dificuldades nos estados do Vermont (Sanders fez ali a sua carreira política), Massachusetts e Oklahoma, enquanto o magnata da construção civil terá o seu maior desafio no Texas (o estado que distribuirá mais delegados, 252 democratas e 155 republicanos), onde o senador Ted Cruz “jogará em casa”.

“Se no Partido Democrata ainda poderá haver dúvidas, uma vitória esmagadora de Trump poderá ser o ponto final na corrida”, acredita Del Percio.

Militares contra ordens ilegais

À conversa com o Expresso, o general Michael Hayden, antigo diretor da CIA e da NSA e um republicano inveterado, acredita que se Trump vencer “ele não poderá levar para a presidência o mesmo estilo da campanha”. E explica porquê: “Recentemente, ele disse que iria usar waterboarding (simulação de afogamento) contra suspeitos de terrorismo. As pessoas nos comícios pareceram muito excitadas com a ideia, mas a verdade é que se tal acontecesse as forças armadas americanas recusariam atuar. Porquê? Os militares aprenderam que não devem obedecer a ordens ilegais que violem o direito internacional. O que se diz ao domingo de manhã na televisão não tem muito a ver com o que irá acontecer na Casa Branca".

[Este texto foi publicado na edição do Expresso Diário de 29 de fevereiro]