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De Rajoy com ironia. A carta do (ainda) chefe do governo espanhol ao líder do Cidadãos

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Pablo Blazquez Dominguez

“El País” revela esta sexta-feira a troca de correspondência em que o líder do PP recusa apoiar Albert Rivera com abstenção na investidura de Pedro Sánchez, o líder do PSOE a quem o Rei pediu que tentasse formar governo

"Estimado Presidente:

Como saberá, neste últimos dias, o Cidadãos alcançou um acordo com o Partido Socialista para um programa de governo reformista e de progresso. Estou convencido que as mais de 200 reformas que estão previstas neste acordo refletem as principais exigências da sociedade espanhola que são incontornáveis para os partidos constitucionalistas.

Li com atenção o documento que me entregou na nossa última reunião, intitulado "Cinco acordos para o consenso", e partilho de boa parte das prioridades reconhecidas nele. De facto, as cinco propostas do seu documento estão em consonância com o conteúdo do acordo de governo.

Gostava de reunir-me consigo para comentar o documento do governo que junto em anexo. Para isso seria bom que pudéssemos encontrar-nos antes do próximo debate de investidura.

Cordiais saudações,

Albert Rivera."

Foi esta a missiva que o líder do partido centrista Cidadãos enviou a Mariano Rajoy há alguns dias, logo a seguir a alcançar um pacto com o líder do PSOE, Pedro Sánchez, a quem o Rei Felipe VI de Espanha pediu no início deste mês que tentasse formar governo após o PP do ainda chefe do governo espanhol ter falhado em alcançar uma maioria qualificada nas eleições gerais de 20 de dezembro.

Para resolver a crise política instalada no país vizinho, Sánchez levou a cabo uma série de reuniões com os líderes dos principais partidos com assento no Congresso e, esta semana, anunciou que tinha alcançado um acordo com Rivera que implica a abstenção dos seus 40 deputados eleitos para permitir que tome posse como chefe do novo governo espanhol na votação de investidura no Congresso, a ter lugar na próxima semana.

Em reação a esse acordo, uma união inesperada aconteceu: o PP ao leme de Rajoy e os esquerdistas do Podemos liderados por Pablo Iglesias recusaram ambos o pacto de Sánchez com Rivera na quinta-feira. Iglesias declarou que esse acordo vai contra os princípios defendidos pelo Podemos. E o ainda Presidente do executivo conservador espanhol classificou-o de "fantochada".

Não é, portanto, surpresa nenhuma a carta de resposta a Rivera que Rajoy lhe enviou e que o "El País" divulgou esta sexta-feira, referindo em particular o "tom irónico" do líder conservador.

"Querido Albert:

Agradeço muito a carta que me enviou. Teria bastado — como até agora — uma chamada telefónica. Sabe que estou sempre à sua disposição.

Diz-me que chegou a um acordo com o secretário-geral do PSOE para votar a sua candidatura à Presidência do governo. Tem todo o direito a fazê-lo.

Espero que compreenda que eu não me junto a esse acordo, que não posso subscrever esse contrato de adesão e que, portanto, não vou apoiar o seu candidato.

Entre outras razões, porque não fui convidado a fazê-lo. Não é preciso recordá-lo de todas as vezes que ele mesmo [Pedro Sánchez] me disse publicamente que não está disposto a pedir nem a aceitar o apoio do Partido Popular, embora como sabe esteja a tentar obter o apoio ou a abstenção do Podemos.

Para além disso, o seu único objetivo, segundo ele próprio, é tirar o Partido Popular do governo. E o seu programa não quer mais do que revogar todo o trabalho que o governo levou a cabo nos últomos meses e que, entre outras coisas, nos levou a ser o país que lidera o crescimento e a criação de emprego entre as principais nações da Zona Euro.

Compreenderá que, sendo o Partido Popular o mais votado em Espanha, se torna difícil para mim explicar aos eleitores do meu partido, aos quais me subscrevo, o apoio a quem não ganhou, revogando tudo o que o meu governo fez e substituindo-o pelo programa do PSOE.

Sabe que estou sempre à sua disposição e dado que leu a minha proposta e que lhe parece interessante, espero que, se o Podemos não der o seu apoio à investidura de Pedro Sánchez, possamos trabalhar juntos nessa ampla coligação de governo que lhe propus três dias depois das eleições e que lhe pareceu muito razoável; coisa que lhe agradeceria profundamente.

Um forte abraço,

Mariano Rajoy Brey"

Ontem, o "El País", referia que a oposição do PP e do Podemos ao pacto de Sánchez com Rivera vai ditar o chumbo de um governo socialista espanhol. A única hipótese de Sánchez vir a ser chefe do próximo executivo depende de uma eventual abstenção dos deputados do partido de esquerda liderado por Iglesias na votação que tem lugar na próxima semana.

  • PP e Podemos unidos contra pacto de Sánchez com Albert Rivera

    Partido conservador de Mariano Rajoy qualifica de “fantochada” o acordo alcançado pelos líderes socialista e do Cidadãos. O “El País” noticia que o movimento liderado por Pablo Iglesias já suspendeu as negociações com o PSOE por “incompatibilidade” desse pacto com o seu programa político