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Internacional

Guerra aberta em França a 14 meses das presidenciais

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Martine Aubry, ex-secretária-geral do PS, tece duras críticas às políticas do Presidente francês, François Hollande

FRED DUFOUR

Oposição de esquerda e até membros do Partido Socialista, no poder, estão contra a proposta de reformas laborais apresentada pelo Presidente, François Hollande, e pela sua nova ministra do Trabalho, Myriam El Khomri

Um grupo de membros do Partido Socialista francês assinou uma carta aberta publicada no “Monde” com duras críticas às políticas do atual Governo de François Hollande, dizendo que a aplicação da reforma laboral proposta pelo chefe do executivo socialista vai ditar a derrota do PS nas eleições presidenciais que se disputam entre abril e maio do próximo ano. A carta, intitulada “Resolver o Impasse”, é assinada por 18 personalidades da política francesa que sublinham que “o que é demais é demais”.

Na missiva, Martine Aubry, o eurodeputado ecologista Daniel Cohn-Bendit e vários outros políticos franceses criticam abertamente o Presidente e o seu primeiro-ministro, Manuel Valls, pelo que classificam de “deriva liberal” das suas políticas. “Não de trata simplesmente do fracasso perfilado para os próximos cinco anos, mas também de uma debilidade duradoura que está a ser preparada em França, ainda por cima pela esquerda", escrevem os autores do texto. Em causa estão várias políticas encetadas pelo Governo de Hollande e Valls, sobretudo a reforma da lei laboral apresentada pela nova ministra do Trabalho, Myriam El Khomri.

Segundo o Governo socialista, a reforma proposta é necessária para “melhorar a competitividade das empresas e desenvolver e preservar o emprego”, facilitando os despedimentos e “flexibilizando” as horas de trabalho semanais. Na carta, o grupo de socialistas que assume agora a sua oposição ao Governo critica “a mobilização de 41 mil milhões de euros [às empresas] para nada” e ainda, fora desse projeto de reforma laboral, o “debate angustiante de privação de nacionalidade” — em referência aos planos anti-terrorismo do Governo socialista de retirar a nacionalidade francesa aos cidadãos com dupla nacionalidade envolvidos em casos de ameaça à segurança nacional.

Oferecer as eleições à direita

Entre as medidas da reforma laboral, está contemplado que sejam as próprias empresas a definirem o tempo de trabalho e a remuneração de horas extraordinárias, hoje em dia reguladas pela Lei Laboral. No projeto de Khomri está ainda previsto facilitar os despedimentos por “motivos económicos” e criar tetos máximos às indemnizações que as empresas têm de pagar em caso de despedimento sem justa causa.

Os sindicatos e a esquerda, incluindo vários membros do Partido Socialista no poder, estão contra o que consideram uma reforma “inaceitável”. As críticas abrem uma guerra dentro do PS que vem dificultar as suas hipóteses nas eleições presidenciais de 2017.

Citada pelo “Monde” esta quinta-feira, a autarca de Lille — filha do fundador da UE Jacques Delors, que foi ministra dos Assuntos Sociais no Governo de Lionel Jospin (1997-2000) e que em 2008 sucedeu a Hollande como secretária-geral do PS francês, um cargo que ocupou até 2012 — acusa o Governo de ser responsável pelo “enfraquecimento sustentável de França”, denunciando as “contra-verdades” e os “mal-entendidos” de Manuel Valls.

“Se nós não endireitarmos as coisas no crescimento económico e no emprego, a esquerda vai perder [as presidenciais de 2017]”, avisa Martine Aubry. “Temos de nos preparar para o futuro.” Questionada pelo jornal sobre a sua possível candidatura às primárias do PS e, consequentemente, às eleições de abril do próximo ano, a autarca deixou claro que não é esse o caminho que quer percorrer. “Quando tivermos isto resolvido, vamos ver quem é escolhido. O meu projeto é ajudar a esquerda a ter sucesso.”

Também o socialista François Rebsamen, ex-ministro do Trabalho de Hollande, que abandonou o cargo em agosto, critica o atual rumo do Governo socialista e as políticas laborais que quer pôr em prática. “A lei El Khomri tem de ser melhorada”, declarou esta semana em entrevista à rádio Europe 1. Menos duro que Aubry e outros parceiros socialistas, Rebsamen disse que, “se o texto [do projeto-lei] for alterado para melhor”, votará a favor dele.

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