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CEO da Apple acusa FBI: pediram-nos para criar “software equivalente a um cancro”

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Astrid Stawiarz

Em entrevista à ABC, a primeira desde que recusou o pedido do governo norte-americano para aceder a dados encriptados de iPhone, Tim Cook diz que só soube da exigência "pelos media". Fonte próxima da investigação desmente essa versão. Empresa já está a reforçar segurança nos seus aparelhos

O CEO da Apple criticou na noite de quarta-feira (madrugada desta quinta-feira em Portugal) o facto de só ter sabido "pelos media" da exigência do FBI para que a sua empresa crise uma "porta dos fundos" que lhes dê acesso a dados encriptados em iPhones. Na sua primeira entrevista pública desde que recusou essa exigência, prometeu ainda lutar contra ela em tribunal.

"Não penso que se deva gerir isto dessa maneira", disse Tim Cook em entrevista à ABC, transmitida na televisão americana . "Não penso que uma coisa tão importante para o país como isto deva ser gerida desta forma", acrescentou.

Fonte próxima da investigação da agência norte-americana desmente essa versão, dizendo ao mesmo canal que isso "simplesmente não é verdade" e garantindo que a equipa legal da Apple foi "a primeira a saber" da vontade do FBI em desbloquear o iPhone de Syed Rizwan Farook, o americano de ascendência paquistanesa que, em dezembro, matou 14 pessoas a tiro em San Bernardino, declarando-se simpatizante do autoproclamado Estado Islâmico (Daesh).

De acordo com o "The New York Times", a Apple já está a trabalhar para reforçar a segurança dos seus aparelhos, tornando mais difícil ataques de hackers. Diz o jornal que estas melhorias, a serem aplicadas nos novos modelos de iPhone, vão "tornar impossível" que a Apple ajude as autoridades norte-americanas a criar o que Cook chama de "porta dos fundos" — um "software equivalente a um cancro" que abre um "precedente grave" e que põe em risco a segurança e privacidade de qualquer utilizador Apple.

Quem diz a verdade?

Há três dias, a "National Public Radio" avançou que, em 70 ocasiões diferentes no passado, "ocorreram situações" iguais à que, há uma semana, abriu esta guerra entre a Apple e o Departamento de Justiça norte-americano, e que, em todas elas, a empresa "decidiu aceitar as ordens judiciais" para permitir ao governo aceder a dados encriptados em iPhones. A garantia foi deixada por Susan Hennessey, uma advogada que trabalhou na Agência de Segurança Nacional (NSA) que agora trabalha no Brookings Institute. De acordo com a especialista, a segurança dos aparelhos Apple contornada pela própria empresa foi tornada pública numa audiência judicial em outubro passado.

Também no início desta semana, os media norte-americanos noticiaram que metade da população dos EUA apoia o FBI contra a Apple neste caso. Uma sondagem do Pew Research Center, levada a cabo logo a seguir à luta Apple vs. governo ter sido tornada pública na semana passada, mostra que 51% dos americanos apoia as exigências do governo e 38% está do lado da empresa de tecnologia. Pelo contrário, aponta a revista "Fortune", a maioria dos utilizadores cibernéticos que já se manifestaram sobre o assunto defende a atitude da Apple.

Reagindo à recusa de Tim Cook em criar um software para contornar a encriptação de dados do iPhone de Farook, o governo acusou a empresa de estar mais interessada em marketing do que em combater o terrorismo. Em resposta a essas acusações, o departamento da polícia de San Bernardino responsabilizou o FBI pelo desaparecimento dos dados do aparelho — dizendo que, no rescaldo do tiroteio nesse condado da Califórnia, a agência federal exigiu a um técnico da polícia que fizesse reset à password de iCloud de Farook.

Sob as medidas de segurança da Apple, que a empresa começou a implementar nos iPhones após as primeiras denúncias de vigilância massiva e ilegal de cidadãos pela NSA feitas por Edward Snowden em 2013, quando se falham dez tentativas de password nesse processo, os dados encriptados são apagados do aparelho.