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O que se passa na Argélia? País terá suspendido acordos de livre comércio com a UE

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FAROUK BATICHE

Decisão tomada pelo primeiro-ministro Abdelmalek Sellal, a 14 de fevereiro, entrou em vigor esta terça-feira, afetando igualmente os acordos com países árabes. União Europeia ainda não reagiu à decisão surpresa

A economia da Argélia está a afundar-se à mesma velocidade que o preço do petróleo continua a cair. E onde agora se instalou a inflação e a austeridade, que alimentam o descontentamento social, o governo do país já não tem como encher os cofres públicos com as vendas de gás e de crude, vendo-se impossibilitado de "comprar a paz social" e garantir um mínimo de estabilidade.

A análise foi publicada esta terça-feira pelo jornal francês "Le Fígaro", um dia depois de ter entrado em vigor um decreto do primeiro-ministro Abdelmalek Sellal, que efetivamente suspende todos os acordos de livre comércio com os Estados-membros da União Europeia e com a chamada Zale (zona árabe). Emitida a 14 de fevereiro, a ordem do executivo previa que "a partir de 23 de fevereiro" todos os serviços aduaneiros em portos e aeroportos são suspensos "de imediato".

Uma nota da Direção-Geral de Impostos da Argélia, divulgada pelo site de notícias "Maghreb Emergent", confirma a decisão unilateral do país, que ainda não foi noticiada por outros media e que ainda não obteve reações oficiais por parte das instituições europeias ou dos países árabes afetados.

De acordo com esse portal de notícias do Magrebe, os importadores que foram à alfândega retirar os seus produtos importados destes países "foram convidados" a pagar a diferença entre o preço da oferta e os altos impostos aplicados a produtos provenientes de países com os quais a Argélia não mantém acordos de trocas comerciais. Neste momento, a retirada de mercadorias das alfândegas está a ser lenta e coloca-se a hipótese de o telegrama do governo ter sido mal interpretado.

Quer se confirme a decisão unilateral ou não, a notícia é só mais uma que vem alimentar a preocupação com o cenário decadente e explosivo na Argélia. Esta terça-feira, o "Le Fígaro" explicava, num artigo intitulado "Porque é que a Argélia assusta a Europa?", que "com um Presidente seriamente diminuído por doença" e as aflições económicas que a Argélia atravessa, largas faixas da população estão a abandonar o país.

Mohammed Benchicou, ex-diretor do jornal argelino "Le Matin", que encerrou em 2006, é citado a dizer que teme "uma falência que criaria o caos e empurraria os argelinos a fugirem para a Europa". Boualem Sansal, um dos mais famosos escritores e intelectuais do país, também está pessimista: "O cenário de uma escala de terror no modelo sírio parece inteiramente credível", diz, de acordo com o jornal francês.

A isto acrescem os rumores de que o exército pode estar a preparar um golpe contra o chefe de Estado e os avanços no terreno do autoproclamado Estado Islâmico (Daesh) na vizinha Líbia, que já está instalado na fronteira com a ex-colónia francesa. Na sua edição desta quarta-feira, o "Le Monde" diz que as autoridades francesas estão a levar a cabo operações secretas contra o Daesh nesse país.

A União Europeia mantém acordos de livre comécio com a Argélia desde 2005, que são parte do chamado Acordo de Associação do bloco europeu com vários estados não-membros.