Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Síria: uma trégua com graves fragilidades

  • 333

Combatentes rebeldes inspecionam destroços de um míssil disparado, esta segunda-feira, sobre a região entre Daraa e Quneitra, sul da Síria

ALAA AL-FAQIR / REUTERS

Entra em vigor no próximo sábado, mas deixa de fora o Daesh e outros grupos jiadistas. A oposição teme que o cessar-fogo negociado por EUA e Rússia beneficie, acima de tudo, Bashar al-Assad

Margarida Mota

Jornalista

Estados Unidos e Rússia anunciaram uma trégua para a guerra na Síria, prevista para entrar em vigor à meia-noite de sábado, em Damasco (menos duas horas em Lisboa). As partes em confronto têm até ao meio dia de sexta-feira para comunicar a sua adesão ao cessar-fogo.

O plano foi discutido ao telefone por Barack Obama e Vladimir Putin, chefes de Estado dos dois pesos pesados da política internacional, que, neste conflito, estão em lados opostos da barricada: Moscovo é o mais forte aliado de Bashar al-Assad (apoiado também pelos Irão e pelo libanês Hezbollah, ambos xiitas) e Washington está do lado da oposição (tal como Arábia Saudita e Turquia, ambos sunitas).

Anunciada na segunda-feira, através de um comunicado conjunto de Rússia e EUA, a trégua prevê o fim da troca de fogo entre as forças leais ao Presidente Assad e grupos da oposição.

O acordo deixa, porém, de fora grandes protagonistas dos combates — o autodenominado Estado Islâmico (Daesh), a Frente al-Nusra (associada à Al-Qaeda), e outras organizações igualmente rotuladas como terroristas pelo Conselho de Segurança da ONU.

“Para nós, a Al-Nusra é um ponto problemático, porque esse grupo está presente não só em Idlib, como também em Alepo, em Damasco e no sul”, reagiu Khaled Khoja, atual presidente da Coligação Nacional de Forças Revolucionárias e de Oposição da Síria. “O que é crítico aqui é que civis ou o Exército Livre da Síria (rebeldes) possam ser alvejados a pretexto de ser a Al-Nusra o alvo dos bombardeamentos.”

Esta terça-feira, o Governo sírio anunciou que aceita a trégua e que vai coordenar com a Rússia a decisão de quais os grupos ou áreas abrangidos pela “cessação de hostilidades”. Para a oposição ao regime, esta trégua irá dar cobertura a Assad — que desde setembro tem beneficiado com os bombardeamentos da aviação russa — para continuar a investir sobre áreas rebeldes.

“A Rússia e o regime irão visar áreas dos grupos revolucionários a pretexto de ali haver membros da Frente al-Nusra”, acusou Bashar al-Zoubi, responsável político do Exército Yarmouk, uma das fações que integram o Exército Livre da Síria (rebelde). “Nós sabemos como essas áreas são mistas. Se isso acontecer, esta trégua vai colapsar.”