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Quando casarem, proponham como condição do casamento andar de bicicleta

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Amna, Salibi, Nour e Asala chocam quem passa por elas na rua. Motivo? Andam de bicicleta, uma rebeldia que desafia as regras que o Hamas impõe às mulheres

"Mamã, olha, há mulheres que andam de bicicleta." A reação de surpresa ouviu-se esta sexta-feira na estrada principal de Gaza, Salahoddin Road, enquanto quatro mulheres se deslocavam de bicicleta. Mas se esta menina admirou a visão que mais lhe deve ter parecido uma miragem, houve quem demonstrasse descontentamento e desprezo: "As mulheres devem obedecer aos seus maridos e preparar comida para eles dentro de casa, não devem imitá-los nas ruas", reagiu um homem de 33 anos, combatente do grupo Jihad Islâmica.

Amna Suleiman tem a mesma idade que aquele homem, mas começou a pedalar quando era uma criança e vivia em Damasco, na Síria. Na década de 1990, ainda adolescente, mudou-se para Gaza e hoje sabe que as regras impostas pelo Hamas restringem a prática de desporto às mulheres: as atletas praticam em estádios à porta fechada, os ginásios são separados por sexo.

Desejando reviver aquele sentimento da sua infância - "pedalar faz-te sentir que estás a voar", explica Suleiman ao "New York Times" - decidiu arranjar um pretexto para voltar a pegar na bicicleta. Com duas amigas, propôs-se a perder peso em duas semanas, à base de muitos passeios clandestinos de bicicleta e uma dieta restrita. A aposta teve três efeitos diferentes: Suleiman perdeu perto de cinco quilos, ganhou 75 dólares (68 euros) e ficou com vontade de comprar a sua própria bicicleta, mesmo sabendo que não poderia andar à vontade na rua.

Condição de casamento: pedalar

A amiga Salibi, que diz que pedalar a faz "sentir-se livre", passou em dezembro a acompanhá-la nestes passeios, sendo que as duas são as primeiras mulheres em anos a atrever-se a fazê-lo de forma pública. Foi com Salibi, a sua irmã Nour, de 21 anos, e a amiga Asala que Suleiman pedalou esta sexta-feira em Salahoddin Road, para espanto de quem por ali passava. As quatro mulheres ouviram buzinadelas de combatentes do Hamas, críticas e muitos piropos, que ignoraram, sentando-se numa zona de relvado para um piquenique. Ali, Suleiman disse às companheiras: "Vocês são jovens. Quando casarem, proponham como condição do casamento continuarem a pedalar". Elas reagiram com risos.

Embora mulheres como estas desafiem as convenções que o Hamas quer impor ao comportamento do sexo feminino, ainda há um longo caminho por percorrer. Os passeios tornam-se possíveis porque as restrições se situam num limbo entre o Governo e os ditames religiosos: como diz Ahmed Muheisin, assistente no Ministério da Juventude e Desporto de Gaza, as mulheres que pedalam em bicicletas representam uma violação dos valores de Gaza, mas na prática não vai impedi-las a não ser que os líderes religiosos imponham uma fatwa (ou lei religiosa).