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Ucrânia leva opressão russa na Crimeia à Eurovisão

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“1944”, sobre Estaline e os tempos em que este desalojou milhares de pessoas da Crimeia, foi a canção escolhida para representar a Ucrânia no festival das canções. O tema de protesto será cantado por Jamala, artista muçulmana da região

Dois anos depois da região ter sido anexada à Rússia, os ucranianos escolheram esta domingo uma cantora da Crimeia para representar o país no próximo festival da Eurovisão. O tema homenageia as vítimas da repressão de Estaline na península do mar Negro.

A artista escolhida é Susana Jamaladinova – que atua sob o nome de Jamala – e é parte da minoria tártara da região, uma comunidade muçulmana com um longo histórico como vítima de perseguições religiosas. Parte da resistência contra a anexação, os tártaros dizem que desde a entrada dos russos na Crimeia a opressão sobre o grupo étnico tem aumentado de forma exponencial.

A canção – “1944” – relembra o ano em que Estaline retirou os tártaros das suas casas e os enviou em comboios para a Ásia Central. Milhares de muçulmanos não resistiram à travessia, outros tantos morreram à fome depois de terem chegado. O trágico episódio afetou toda uma geração na Crimeia, que apenas nos anos 80 foi autorizada a regressar à sua terra-natal.

“Aquele ano terrível mudou para sempre a vida de uma mulher frágil, a minha bisavó Nazylkhan. A vida dela nunca mais foi a mesma”, confessa Jamala.

A letra é quase toda em inglês – com apenas uma estrofe em turco – e assume contornos de um poderoso grito de protesto. “Eles vêm a tua casa, / Matam-vos a todos e dizem / Não somos culpados”, ouve-se a dada altura.

Mas apesar do simbolismo na escolha de cantora e canção, os responsáveis dos tártaros na Crimeia rejeitam que esta seja uma canção de protesto e recusam quaisquer paralelismos com a anexação da Crimeia há dois anos. “Não há qualquer menção sobre a ocupação ou outras ofensas que estão a acontecer”, diz Mustafa Jamilev, líder dos tártaros na península. “Ainda assim, [a canção] toca no assunto das pessoas indígenas que passaram por injustiças terríveis.”

Ainda não se conhece qual será o parecer da Eurovisão relativamente à escolha da Ucrãnia, já que o concurso proíbe canções com letras que promovam diretamente o protesto político. Em 2009, a Geórgia viu a canção “We Don’t Wanna Put In” – um trocadilho com o nome de Vladimir Putin – desqualificada por criticar o Presidente russo, através de trocadilhos envoltos em pop eletrónica. A canção surgira um ano depois de uma guerra entre os dois países.

A canção terá de passar primeiro por uma semifinal mas a sua mensagem fá-la uma das favoritas à vitória. Saber-se-á a reação do público – e da Rússia – entre 10 a 14 de maio, as datas do festival, este ano a decorrer em Estocolmo. Depois de vários anos sem sair da semifinal, Portugal não estará presente.