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A quatro meses do referendo à UE, Cameron enfrenta divisões internas

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David Cameron defende que abandonar a União Europeia daria ao Reino Unido uma “ilusão de soberania”

TOBY MELVILLE / REUTERS

A BBC avança que Boris Johnson, autarca de Londres, vai fazer campanha pela saída do Reino Unido da UE, apesar da tentativa de dissuasão feita por David Cameron. Há também seis membros do Governo britânico que já anunciaram o início da sua campanha pelo “não” à União Europeia

Um dia depois de David Cameron, primeiro-ministro britânico, ter anunciado a data do referendo sobre a saída do Reino Unido como membro da União Europeia (UE), Boris Johnson, autarca de Londres, confirmou que vai fazer campanha pelo “não” à UE, segundo avança este domingo a BBC. Já no sábado, seis membros do Governo britânico se tinham demarcado da posição de Cameron e anunciaram o início da sua campanha pela saída da UE.

“Há demasiado ativismo judicial. Demasiada legislação a vir da União Europeia”, afirmou Boris Johnson este domingo, citado pela BBC, confirmando a sua posição. “Toda a gente deve reconhecer David Cameron pelo que ele conseguiu em tão pouco tempo. [Mas] depois de 30 anos a escrever sobre isto, tenho a oportunidade de fazer alguma coisa.”

“A última coisa que queria fazer era ir contra David Cameron ou o Governo”, acrescentou. Em entrevista à BBC, este domingo, David Cameron tinha feito um apelo direto ao autarca de Londres para que apoiasse a manutenção do Reino Unido na UE, mas em vão.

Para David Cameron, abandonar a UE daria ao Reino Unido uma “ilusão de soberania”, ficando o país apenas com poder e peso internacional, mas não na Europa, segundo disse em entrevista.

“Não teríamos a capacidade de ajudar as nossas empresas e de nos assegurarmos de que não são discriminadas face ao euro. Não poderíamos pressionar os países europeus para que partilhassem informação de fronteiras e sabemos o que estão a fazer os terroristas e os criminosos na Europa”, afirmou Cameron, citado pela agência Lusa.

Contra a sua posição, estão seis ministros do seu Governo, para além de outros altos cargos do Partido Conservador britânico.

Um dos seis é o ministro do Trabalho e Pensões, Iain Duncan Smith, que disse este domingo que a permanência do Reino Unido na UE expõe o país ao risco de ataques terroristas como os que aconteceram em Paris, segundo o jornal britânico “The Guardian”.

“E há ainda outra preocupação e risco: a questão da migração, em colapso na União Europeia, com a UE praticamente incapaz, pelo que parece, de dar resposta a esta onda de migrantes que não vêm só da Síria”, acrescentou, citado pelo mesmo jornal.

Para além de Iain Duncan Smith, também a responsável britânica para a Irlanda do Norte, Theresa Villiers, o titular da pasta da Cultura, Meios de Comunicação e Desporto, John Wittingdale, o líder da Câmara dos Comuns, Chris Grayling, e a secretária de Estado para o Emprego, Priti Patel, anunciaram no sábado que não apoiam a linha oficial do Governo, que defende a permanência na UE.

Michael Gove, amigo pessoal de Cameron, admitiu que comunicar a sua posição foi “a decisão mais difícil” da sua “vida política”. “É uma oportunidade que não surge duas vezes nas nossas vidas. Por essa razão, vou permanecer fiel aos meus princípios e vou aproveitar a oportunidade deste referendo para abandonar uma UE presa no passado”, sublinhou o ministro da Justiça britânico, citado pela Lusa.

“Ficar com o melhor de dois mundos”, diz Cameron

Depois de ter convocado no sábado o referendo para 23 de junho, para decidir a saída ou a permanência do Reino Unido na UE, o primeiro-ministro britânico defendeu que o acordo alcançado na sexta-feira em Bruxelas permite a Londres ficar “com o melhor de dois mundos”.

”Estaremos no mercado único, teremos cooperação política para manter o nosso povo seguro, mas estaremos fora dos projetos de que não gostamos, fora do euro, fora do acordo para que não haja fronteiras”, afirmou Cameron.

Questionado sobre a possibilidade de o Reino Unido sair do grupo dos 28 e iniciar depois um acordo comercial com a Europa, o primeiro-ministro considerou que esse cenário levaria “potencialmente a sete anos de incerteza”. O chefe do governo britânico alertou que “todos os países que procuraram esse tipo de acordos tiveram de aceitar a liberdade de circulação dos cidadãos e uma contribuição para o orçamento comunitário”.

“Seria irónico que saíssemos da União, negociássemos o nosso regresso ao mercado comum e deixássemos de ter a capacidade de implementar as restrições às ajudas sociais [aos cidadãos comunitários] que eu negociei”, defendeu.

“Se ficarmos numa Europa reformada, sabemos o que vamos encontrar. Sabemos como fazer negócios lá, como criar emprego, como continuar a [promover] a nossa recuperação económica", argumentou, considerando, por outro lado, que deixar a UE seria um passo para a escuridão, com um risco real”.