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Se antes te habituaste a lagosta, agora nem dinheiro tens para tremoços

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Mais um dia igual aos outros: venezuelanos fazem fila à porta de um supermercado em Caracas

FEDERICO PARRA / AFP / Getty Images

A instabilidade económica e social na Venezuela parece estar a tornar-se banal. No país onde o petróleo era rei (mas agora de pouco ou nada serve), falta tudo no dia-a-dia da população: produtos básicos, dinheiro para os comprar, emprego, água, luz, medicamentos. O mínimo de dignidade para viver

Cinco da manhã. O sol ainda não nasceu e já há pessoas a formarem filas à porta de alguns estabelecimentos comerciais. É o emprego de quem pouco ou nada tem: fazer fila e esperar que, na escassez das prateleiras dos supermercados, farmácias e lojas, se encontrem os produtos básicos necessários para sobreviver. Mais tarde, quando o dia começa, os lojistas repetem o ritual do dia anterior: de pessoa em pessoa, vão marcando no braço de cada potencial consumidor o número da sorte. Hoje, mais do que nunca, os venezuelanos estão entregues à sua sorte.

Leite, arroz, farinha, papel higiénico, fraldas, preservativos ou até medicamentos – quem vive neste país vai à procura do básico. Nem sempre conseguem o que procuram. Nas prateleiras os produtos são ‘à conta’ e, quando chega a sua vez, encontrá-los não é certo – ou pelo menos a um preço que não seja incomportável. Lá está, é uma questão de sorte. Os bens são vendidos de acordo com o bilhete de identidade dos clientes, para (tentar) evitar grandes ajuntamentos: aqueles cujo “número termine em 0 e 1 só podem aparecer às segundas-feiras, 2 e 3 às terças” e por aí em diante, explica ao Expresso Ana Daniela Nieto, estudante venezuelana de 24 anos a viver em Maracay, no norte da Venezuela. A juntar a isto há todo um outro esquema montado: no ato de compra, os clientes têm de colocar o dedo indicador num leitor de impressões digitais, que os impede de adquirir o mesmo produto na mesma semana, como parte de um sistema de controlo imposto pelas autoridades.

À porta, centenas de pessoas esperam a sua vez com sacos de compras vazios, prontos a encher, e formam filas desordenadas que quase dão a volta a estes locais. “Apareceu nos jornais venezuelanos que uma rapariga grávida perdeu o bebé depois de esperar o dia inteiro numa fila, à torreira do sol”, relata a estudante de 24 anos.

Enquanto uns esperam, outros fazem negócio. “Cadeiras de descanso são alugadas, café e snacks vendidos”, conta Estêvão Casaca, topógrafo português de 53 anos, a viver em Caracas há 15. É o vale tudo durante as horas de espera. Outros vão ainda mais longe. A lógica é simples: “tu pagas-me e ficas com o meu lugar, cá à frente”. São pessoas que trocam a falta de um emprego por uma oportunidade de negócio fácil: chegam ainda de noite e passam a madrugada a marcar lugar, para depois venderem a sua senha àqueles que aparecem de manhã. “Assim que recebem o dinheiro, voltam para a fila e o processo repete-se.” Vivem do negócio da fila.

Este cenário não é novo e tem vindo a agravar-se cada vez mais nos últimos meses. O país está afundado na própria escassez, na inflação desmesurada, num défice excessivo e numa crise económica que já não é possível esconder. A juntar a isto tudo, a Venezuela está a braços com uma grave crise energética, que levou o Governo decretar o racionamento de energia elétrica há quase um ano – e a implementar, na semana passada, uma medida controversa para poupar eletricidade: limitar o horário de abertura dos centros comerciais, uma imposição que segundo a oposição vai prejudicar ainda mais a economia venezuelana.

Antes lagosta, agora nem sequer tremoços

Dividida, problemática e instável. A Venezuela é o país das contradições: a terra onde recentemente uma meia de leite custava 180 bolívares (€25), aproximadamente o mesmo valor de dois mil litros de gasolina. “Imagine de um lado da balança um copinho com café e leite e do outro dez bidões de gasolina, de 200 litros cada”, compara o empresário português de 55 anos Sílvio Moreira, a residir em Caracas há 40. Um equilíbrio improvável, mas não na Venezuela.

Depois de dois anos de instabilidade já não é possível esconder a crise. Há consenso na oposição, que ganhou a maioria no Parlamento nas eleições de dezembro passado, que não haverá mudança sem a saída de Maduro do poder e sem o fim do chavismo. E sem o fim das políticas marcadas pelo desinvestimento, crescimento descontrolado do Estado Social e importações de grande parte do que se consome - que já não conseguem ser amparadas pelo preço do petróleo, em forte queda. “Quando o petróleo estava a 100 dólares, o Governo tinha dinheiro para fazer muitos programas sociais”, diz Estêvão Casaca. “Hoje em dia, [o Estado] tem na mesma essa despesa, mas com o preço do petróleo mais baixo não a consegue sustentar.” Mas esta quarta-feira, pela primeira vez em 20 anos, o presidente venezuelano anunciou um aumento do preço da gasolina de 0,07 (€0,01) bolívares para 1 bolívar por litro (€0,14/L), numa tentativa de fazer frente à crise.

Os salários não conseguiram acompanhar a subida vertiginosa dos preços, diminuindo assim o poder de compra das famílias. “Se antes te habituaste arroz e lagosta, agora nem sequer tens dinheiro para comer tremoços”, declara o topógrafo português. O mínimo oficial que um venezuelano recebe por mês são 9.649 bolívares (€1375), o que, feitas as contas, representa ao final de uma semana cerca de 2.400 bolívares (€342). Pode parecer muito, mas não se tivermos em conta a inflação: os preços estão tão elevados que o dinheiro que se junta numa semana não é sequer suficiente para comprar 2kg de cebolas (1.500 bolívares cada). “E, no final, fica-se sem dinheiro para pagar os transportes de regresso a casa”, relembra o empresário Sílvio Moreira, no seu sotaque entre o português e o espanhol.

O desequilíbrio na economia venezuelana não deixa margem para dúvidas: a crise que afeta o país há cerca de dois anos está a implodir. De fora para dentro. A queda do preço internacional do petróleo, a principal fonte de receitas do país, não tem permitido ao ouro negro pagar a dívida e as importações nacionais. E trouxe à luz do dia um conjunto de indicadores económicos que o Governo de Nicolás Maduro quis esconder. Em janeiro deste ano, o Banco Central da Venezuela finalmente falou sobre o assunto e adiantou que os preços subiram 141,5% em 2015, atingindo assim um recorde mundial. Já o Fundo Monetário Internacional (FMI) foi ainda mais longe, apontando uma inflação de 275% no ano passado, que poderá alcançar 720% em 2016. A organização prevê ainda que a economia venezuelana perca um quinto do valor do Produto Interno Bruto (PIB) em três anos, o que tendo em conta a queda de 4% em 2014, corresponde a um retrocesso do país para o nível de atividade económica de 2006. Ou seja, uma década perdida.

E a culpa não é apenas do petróleo, segundo dizem os analistas. O pior desempenho da América Latina e um dos piores do mundo deve-se também à política económica de Caracas e do Banco Central da Venezuela, que reduz drasticamente o valor do bolívar. Vendo-se sem dinheiro, o banco decidiu imprimir mais moeda, de tal forma que esta acabaria por perder 94% do seu valor desde meados de 2014. Para tentar limitar a inflação, o Governo implementou um controlo de preços, o que resultou em escassez num contexto em que as importações se tornaram incomportáveis, devido aos preços inflacionados dos produtos. Mas Maduro olhou para o lado e lavou as mãos: apontou o dedo ao mercado negro e contrabandistas, aos empresários, à oposição e aos Estados Unidos, que acusou de declararem uma “guerra económica” ao seu país.

O corte de água apanha-te de surpresa

Racionamento é a palavra de ordem num país onde tudo falta. Além das prateleiras nos supermercados, o vazio estende-se a outras áreas da sociedade. Cerca de 70% daquilo que é consumido na Venezuela é importado. E com a desvalorização do bolívar já pouco consegue entrar no país. Segundo a Fundação Bengoa, que realiza investigação na área da nutrição, 20% da população está a deixar de realizar as três refeições diárias – e o país debate-se ainda com uma crise no fornecimento de água. “Existem racionamentos até de três dias numa semana”, conta Gonzalo Eljuri, professor de 40 anos a viver em Caracas. “E o pior é que nem sempre se cumpre o horário e [o corte na água] apanha-te de surpresa.”

Na área da saúde, o desabastecimento de remédios chega a 80%, numa situação semelhante à de países da África Subsaariana. Faltam medicamentos básicos ou para tratar doenças graves, equipas médicas e os hospitais públicos estão a deteriorar-se. “Vou dar um exemplo: eu costumava usar a pílula e para a encontrar tinha de ir a todas as farmácias da cidade”, conta Ana Daniela. “Por vezes chegava a uma das delas, tinha uma fila de 400 pessoas à frente e não conseguia comprá-la.”

E agora há ainda o vírus zika. “A maior parte dos medicamentos não se consegue, são extremamente escassos”, adianta Sílvio Moreira. “É uma situação que se vai agravando e também por isso as pessoas foram-se lentamente acostumando, lentamente aguentado.” Até que a situação bateu ainda mais fundo quando, no início de fevereiro, a oposição anunciou a existência de uma crise humanitária no país.

Quando parecia que as coisas já não podiam piorar, a Venezuela viu nascer um ‘menino’ capaz de secar os poucos recursos que ainda lhe restam. O El Niño chegou e as pessoas viram a luz das suas casas a ser racionada. O Governo criou um monstro: “Atribui as culpas ao El Niño [que faz descer o nível da água nas barragens hidroelétricas] e não vê a sua própria incapacidade”. Manuel Guevara, engenheiro elétrico que integra a equipa técnica da Mesa da Unidade Democrática (MUD), coligação de partidos políticos da oposição, recorda que este fenómeno não é novo. Teve o seu pico entre 2008 e 2010, altura em que o Governo preferiu sobreexplorar a água para evitar o racionamento elétrico. A responsabilidade desta situação, sublinha, “não é da crise económica, é culpa do Governo”. “Apesar de todas as previsões já apontarem para este fenómeno em 2015/16, o Governo não tomou as medidas que devia, como fez por exemplo a Colômbia. Preferiu gastar todos os recursos que tinha na campanha eleitoral e não nos investimentos necessários, quando o preço do petróleo estava alto.” Esta era por isso uma situação evitável que neste momento se tornou inevitável.

A face mais visível deste fenómeno é a chamada ‘crise dos centros comerciais’. Nicolás Maduro viu-se obrigado a restringir o horário de funcionamento destes espaços entre as 15h e as 19h, de segunda a sexta-feira, para poupar energia elétrica. “Isto contado ninguém acredita. O país está numa situação realmente grave. A crise chegou a um ponto de tormenta perfeita e nada se consegue fazer para a mudar”, diz Sílvio Moreira, revelando alguma agitação na voz. Existem “500 a 600 mil empregados a trabalhar nos centros comerciais, que são o grande motor da economia. Como vão pagar alugueres? Como vão pagar ordenados? Luz, água, gás?”. E não são apenas cinemas e supermercados que estão em risco - bancos, correios, empresas, farmácias, laboratórios clínicos, restaurantes também. “Os centros comerciais converteram-se no nosso país num sítio onde podes encontrar tudo”, refere Manuel Guevera. “A Venezuela tem um sério problema de segurança pública. E as pessoas habituaram-se a ver estes espaços como mais seguros, que foram convertidos numa espécie de refúgio.”

Tudo por um pacote de leite

Se há coisa de que os venezuelanos parecem não ter é medo do dia de amanhã. “As pessoas não estão felizes, mas já se acostumaram a esta situação”, garante Estêvão Casaca. O topógrafo relembra que a população “já tem cerca de dois anos disto”. “As pessoas gastam para viver, porque não sabem se no dia seguinte o produto que querem adquirir vai ser ainda mais caro. Ou sequer se existe.”

A paciência dos venezuelanos pode ter prazo de validade? “Às vezes vê-se nas notícias que, aqui ou ali, aparecem ligeiros distúrbios, mas não posso dizer que tenha assistido a isso”, relata Sívio Moreira. “Fico surpreendido por ver como é que as pessoas ainda conseguem sobreviver.” Estão com “um nível de mal-estar que nem imaginas”, acrescenta Guevara. “O que se passa é que elas sabem que se protestarem sofrem retaliações” que podem desencadear mortes, como aconteceu no protesto de estudantes em 2014.

Nas redes sociais chovem também diariamente várias notícias e mensagens que denunciam e satirizam uma crise que já não é suportável – e no Twitter até já foram criadas hashtags de protesto. #MaduroEresPeorQueElZika é uma delas. E quem anda pelas ruas pode ver e ouvir esse desconforto latente. “A conversa de algumas pessoas mostra como estão zangadas. Não consideram normal a situação a que o país chegou, mas aceitam que não têm alternativa”, esclarece Ana Daniela Nieto. A exceção tornou-se a regra: ir para as filas sem encontrar o que se procura tornou-se parte da rotina. “Para ser sincera, as pessoas aqui levam tudo com tanta calma que isso é parte do problema: ‘se não há leite, o que posso fazer?’.” Mas estão tão zangadas que um simples rastilho é suficiente para provocar uma explosão. “Nota-se a instabilidade, as pessoas estão paranoicas com a insegurança, prontas a lutar para que ninguém lhes roube o seu lugar na fila.” Os problemas resolvem-se onde as pessoas estão. Com pânico, pedras e violência nas mãos: tudo por um pacote de leite.

Outras preferem a incerteza do desconhecido à certeza de mais um dia igual, com filas e protestos, procurando assim condições mínimas de vida num outro local. Aqui não há saída, diz Ana Daniela. “Penso que a minha geração, jovens estudantes ou recém-licenciados, não vê um futuro neste país. Esta é a questão mais comum da minha geração: quando é que te vais embora? E para onde vais?”