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Quando um Papa fala em preservativo...

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reuteres

.. é sempre notícia de primeira página. Mas, na verdade, nunca trouxe qualquer novidade teológica. Com João Paulo II, Bento XVI e, agora, com Francisco o Vaticano falou diretamente do assunto. Sem que nunca mudasse uma vírgula na doutrina

Papa” e “preservativo”. As duas palavras juntas, é certo e sabido, que dão direito a explosão e que fazem sempre correr muita tinta. Foi assim com João Paulo II, com Bento XVI e agora com o Papa Francisco. As notícias falaram de “grande retrocesso” ou de “revolução” na doutrina católica, conforme o ano, o Sumo Pontífice, ou o local em que a frase era proferida. E, de facto, é assim há quase trinta anos. Como é assim que, apesar de todos os anúncios de uma mudança doutrinal, se mantém inalterada a posição oficial da Igreja sobre o assunto. Que, na verdade, é e continua a ser essencialmente contra a utilização do preservativo.

O Catecismo da Igreja Católica não deixa margens para dúvidas. “É intrinsecamente má qualquer ação que, quer em previsão do ato conjugal, quer durante a sua realização, quer no desenrolar das suas consequências naturais, se proponha como fim ou como meio tornar impossível a procriação”.

O princípio foi estabelecido em 1992 e vigora até hoje. Com este princípio, a Igreja recusa todos os métodos contracetivos existentes no mercado. Na verdade, o controlo de nascimentos “conformes aos critérios objetivos da moralidade”, isto é com direito a bênção católica, resumem-se à “continência periódica“, aos “métodos da auto-observação” e ao “recurso aos períodos infecundos” da mulher. O preservativo, evidentemente, não se inclui neste leque limitado de contracetivos autorizados.

Francisco, desta vez, não inovou

Toda esta introdução vem a propósito das últimas palavras do Papa Francisco, ditas no avião, na sua viagem de regresso de um visita histórica ao México. Francisco admitiu que “em certos casos”, como no combate ao vírus zika, a utilização de contracetivos “não é um mal absoluto”.
Daí até que a Comunicação Social começasse a falar de uma abertura da Igreja ao uso do preservativo, foi um passo de anão. Aliás, a curta declaração de Francisco acabou por ter um efeito de napalm sobre tudo o resto que o Papa fez e disse na última semana: fosse o encontro com o patriarca ortodoxo (ao fim de um divórcio de mil anos !!!), fossem as denúncias contra o narcotráfico, ou mesmo contra as mafias e o crime organizado. Condenada a ficar apenas como uma nota de rodapé ficou, ainda, uma declaração brutal de Francisco contra quem, na Igreja, esconda casos de pedofilia. Francisco disse ipsis verbis que “um bispo que transfere um padre de paróquia quando há provas de pedofilia é inconsciente e o melhor que pode fazer é apresentar a renúncia. É uma monstruosidade”, disse. Quase ninguém ligou.

Pouco importou, também, que o Papa mencionasse os contracetivos para evitar a propagação do zika em comparação com as sugestões da Organização Mundial de Saúde de que as mulheres grávidas infetadas pudessem recorrer ao aborto. Porque é aí que a Igreja traça uma linha vermelha absoluta. O aborto “não é um mal menor, é um crime”, disse Francisco. E acrescentou no seu tom direto como uma seta: “É deitar fora alguém para salvar outro. É o que faz a Mafia, não? É um crime, é um absoluto”.

O efeito de 'apagador' de tudo o resto que a palavra “preservativo” tem na boca de um Papa não é novo. Em 1993, sucedeu o mesmo a João Paulo II. O Papa foi ao Uganda quando o País era alvo da campanha das autoridades mundiais de saúde pelo uso do preservativo, numa das regiões mais flageladas pela SIDA. Durante uma homilia, o Papa lembrou-se de dizer que “a castidade é a única maneira segura e virtuosa de acabar com a praga trágica” da doença. E a viagem evangélica na prática, acabou aí. O Papa nem chegou a usar a palavra “preservativo”, mas ela estava implícita e foi abundantemente referida nos textos e artigos publicados por todo o mundo. Pouco valeram os seus encontros “históricos” ou as denúncias da pobreza, da exploração ou das assimetrias mundiais. Pouco valeram os esforços do Vaticano para poupar a imagem do Papa que, a partir daí, foi rotulado de ultra-conservador. As caricaturas (com o cartoonista António a produzir um dos seus desenhos históricos, com João Paulo II com um preservativo no nariz) reforçaram para sempre esta imagem, que se colou à pele do Papa polaco até ao seu fim.

Em 2009, o caso repete-se com Bento XVI. No avião,de visita aos Camarões, Ratzinger fala aos jornalistas que o interpelam novamente sobre o combate à Sida. “Não se resolve o problema com a distribuição de preservativos. Pelo contrário, o seu uso agrava o problema”. A chuva de críticas voltou a cair, forte, sobre o Vaticano. A visita a África, mais uma vez, ficou para segundo plano e, um ano mais tarde, o Papa viria a admitir (na longa entrevista a Peter Seewald, que deu origem ao livro «Luz do Mundo») que “pode haver casos pontuais” onde o uso do preservativo até pode ser considerado como “justificado”.

A exceção para o recurso a contracetivos não era, aliás, uma novidade na Igreja. Paulo VI, que pontificou até 1978, autorizou que as freiras que permaneceram no antigo Congo Belga em plena guerra civil tomassem a pílula, para evitar eventuais gravidezes, resultantes das violações de grupos rebeldes que atuavam na região. A atitude do Papa foi, essa sim, histórica. Mas, então, como agora foi apenas uma exceção à doutrina que permanece intocável sobre esta matéria. E, pouco provavelmente, vai mudar. Mesmo perante os milhares de infetados com o zika.