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Depois do primeiro negro, o primeiro judeu? (Ou a primeira mulher?)

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Depois do primeiro negro, o primeiro judeu? (Ou a primeira mulher?) Qualquer que seja o resultado das primárias democratas nos EUA, vai fazer-se História este ano

Luís M. Faria

Jornalista

A campanha presidencial norte-americana prossegue o seu extenso caminho. Daqui a uma semana têm lugar as primárias democratas no estado da Carolina do Sul (as republicanas são este sábado, com Trump claramente favorito). Se as sondagens se confirmarem, Hillary Clinton será a vencedora. Num estado tão conservador como esse, e onde a ex-secretária de Estado tem sobre o senador Bernie Sanders uma vantagem de 3 para 1 entre o eleitorado negro, que lá é decisivo, ninguém ficará surpreendido. Mas pode acontecer que Sanders, mesmo não ganhando, consiga um resultado suficientemente bom para voltar a abalar o favoritismo da sua rival.

Já o fez ao vencer as primárias em New Hampshire com uma enorme vantagem, e poderá voltar a fazê-lo este sábado no Nevada, onde os delegados eleitorais são escolhidos por um método diferente: um ‘caucus’, ou reunião de militantes, que não é uma simples eleição aberta.

Em New Hampshire, Sanders fez história, por ser o primeiro candidato judeu a triunfar numas primárias presidenciais. Caso se torne o candidato do seu partido às eleições do próximo novembro – as probabilidades continuam a ser contra, mas já foram mais – voltará a fazer história. E se conquistar a presidência, a História não o esquecerá. Quem é eleito para esse cargo entra diretamente para os livros, e o sítio de onde provém ocupa sempre um lugar central na narrativa. Sanders não ignora o peso que as políticas de identidade têm nos Estados Unidos. No entanto, para ele o judaísmo não é a questão determinante. Aquilo que o move, a causa pela qual se bate desde há décadas, é o combate contra a desigualdade económica. Porém, curiosamente, até nesse modo quase indiferente de encarar a sua origem ele é judeu.

Embora se fale muito dos judeus ortodoxos pelo papel que têm no apoio incondicional às políticas do Governo israelita, grande parte dos judeus norte-americanos é secular, não frequentando a sinagoga e limitando a sua observância dos rituais judeus a determinados momentos, como o bar mitzvah e a Páscoa. Além disso, apesar de uma acentuada viragem à direita que as últimas décadas trouxeram, a maioria da comunidade continua a ser de esquerda. Isso provém da experiência de opressão ao longo de séculos, em especial na Europa. Mesmo quando chegavam aos Estados Unidos e prosperavam, conservavam os antigos ideais socialistas, que aliás presidiram à criação de Israel, como se vê pelo movimento dos kibbutz. Sanders, como milhares de judeus norte-americanos e não só, foi viver num kibbutz durante a sua juventude.

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Deus? É o que precisa de ser feito

“Permitam-me ser muito pessoal. Sou judeu. A família do meu pai morreu em campos de concentração”, disse ele recentemente numa universidade, a propósito de uma pergunta que uma jovem muçulmana lhe fez sobre islamofobia. O seu desconforto notava-se. Filho de um polaco chegado aos EUA em 1021 e de uma filha de emigrantes polacos e russos, cresceu em condições modestas, mas tem relutância em falar disso, e de assuntos pessoais em geral. Isso terá a ver com o seu temperamento, mas é um pouco anómalo numa época em que a chamada narrativa pessoal constitui um elemento chave do marketing político, e alguns candidatos baseiam nela as suas campanhas inteiras.

Talvez por estar consciente de que os norte-americanos jamais elegeriam um presidente assumidamente não religioso, Sanders afirma que “a religião é um princípio condutor da minha vida. Não estaria a concorrer a Presidente dos Estados Unidos se não tivesse sentimentos religiosos e espirituais muito fortes”. Contudo, segundo Richard Sugarman, um professor de filosofia que é seu amigo e judeu ortodoxo, Sanders não tem qualquer relação com a Igreja organizada. É secular, e provavelmente ateu ou quase ateu (Sanders diz que acredita em Deus, mas define-o de uma forma vaga, sem referência a uma entidade divina). “Deixem-me dizer uma frase que vem de Levinas [o filósofo judeu]: conhecer Deus é saber o que deve ser feito. Ele não fala muito sobre a divindade, mas fala sobre o que precisa de ser feito”, explica Sugarman.

Um “anticlímax maravilhoso”

David Harris-Gershon escreve na revista Tikkun que “para Sanders, o socialismo é judeu. Acabar com a desigualdade económica é judeu. Apoiar os negros americanos na sua luta contra a opressão continuada é judeu. O que não significa que tais coisas o sejam inerentemente, mas que para Sanders essas posições são uma extensão direta do seu judaísmo. A sua longa carreira em busca de justiça social é uma parte central da sua identidade política, da mesma forma que ser judeu é parte da sua identidade cultural, e as duas estão inextricavelmente ligadas. A crença em Deus não importa. Ir à sinagoga não importa. Cumprir o kosher não importa. O que importa é a justiça. E essa importância é judaica”.

Justiça, especificamente na sua vertente social, é mais fundamental para Sanders do que a ligação a um particular grupo étnico. Isso distingue-o de outros judeus que atingiram lugares proeminentes no sistema político americano. O senador Joe Lieberman, candidato a vice-presidente em 2000 (com Al Gore, que perdeu) falava frequentemente da sua religião, cujos numerosos mandamentos cumpria à risca. Sanders não faz isso, mas o rabbi Jonah Posner, diretor de um centro ligado à versão mais liberal da fé judaica, o Judaísmo Reformista, diz: “É o anticlímax mais maravilhoso da história do judaísmo americano. Temos um tipo que é de Nova Iorque, com pronúncia de Brooklyn, chamado Bernie, que é um candidato presidencial viável, e ninguém está a discutir o assunto, o que para mim é um testemunho notável do sucesso que a comunidade judaica americana teve em integrar-se completamente e ao mesmo tempo permanecer distinta”.