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“Enquanto houver um ser humano acorrentado, toda a humanidade estará acorrentada”

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Gregoire Ahongbanan quer mudar o mundo. Começou pelo Oeste de África, onde milhares de pessoas com doenças mentais são acorrentadas pelas próprias famílias, que não sabem como tratá-las

Há pessoas que querem mudar o mundo ou, pelo menos, participar nessa mudança começando pelo que está à sua volta. Gregoire Ahongbanan, antes mecânico, agora uma espécie de filantropo, é uma dessas pessoas – enquanto tenta mudar o Oeste de África, acabando com o estigma que rodeia as pessoas que sofrem de doenças mentais, tenta mudar o mundo, porque como diz à BBC, "enquanto houver um só ser humano acorrentado, toda a humanidade estará acorrentada".

A expressão é literal. Em países como o Benin, onde nasceu, mas também a Costa do Marfim, Togo ou Burkina Faso, esta é uma prática comum: convencidas de que os seus familiares estão possuídos pelo diabo ou foram alvo de magia negra, as pessoas acorrentam estes doentes a árvores, por exemplo, porque não sabem lidar com eles de outra forma.

As alternativas de tratamento são poucas: habitualmente, quem conhece um paciente com doença mental leva-o a um curandeiro (que pode ser um bokhonon, especializado em adivinhação e maldições, ou um amawato, que diz curar os doentes através de ervas medicinais). A outra opção é levá-los a uma igreja evangélica, que promete salvá-los através das suas orações.

Além de estas serem crenças tradicionais naquelas regiões, um outro factor dificulta o tratamento dos doentes: é que a única instituição pública que trata doentes mentais, o Jacquet Public Hospital, cobra uma taxa de 20 mil francos por mês (cerca de 29 euros) para os internar – um valor que representa quase metade do salário médio de Benin, lembra a BBC.

Benin, centro do vodu

Perante este quadro dramático, há cerca de 30 anos Gregoire percebeu que teria de tomar medidas para salvar estes doentes. "A perceção que nós temos em África é que os curandeiros são mais eficientes do que os médicos a tratar doenças mentais. Mas eu sei que não é assim", acrescenta, alertando para o facto de "a maior parte dos doentes começar o tratamento em igrejas e curandeiros, por isso, a sua saúde deteriora-se muito antes de serem tratados de forma adequada".

Tudo isto levou à criação da associação de Saint Camille, a instituição de caridade gerida por Gregoire que visa tratar, de uma forma "humana", estes pacientes, com um baixo custo para as suas famílias. Na Saint Camille, que já conta com mais de uma dezena de centros espalhados pelo Oeste de África, os ex-pacientes constituem a maior parte da equipa de funcionários. As piores situações encontram-se no Benin, assegura Gregoire: "Aqui a situação ainda é pior, porque é o centro das práticas de vodu".

A luta de Gregoire

Embora nem todos os milhares de pacientes que recorrem à Saint Camille cheguem às mãos de Gregoire a tempo, os resultados estão à vista. O caso de Aime, um doente mental de 24 anos, é exemplo disso mesmo: os irmãos mantinham-no acorrentado a uma árvore para não incomodar os vizinhos, uma vez que costumava fugir e gritar, acusando as pessoas de o roubarem. Quando após oito meses de tratamentos prescritos pelo hospital os irmãos deixaram de poder pagar a mediçação, a irmã Edmunda assistiu a uma palestra dada por Gregoire e percebeu que poderia haver uma solução para Aime. Hoje em dia, Aime está a ser tratado num dos centros administrados pelo Saint Camille, em Calavi; já consegue dormir e apresenta sinais de recuperação.

Outro caso de sucesso é o de Judikael, um jovem com doença mental que costumava fugir de casa porque as vozes que ouvia na sua cabeça lho ordenavam. Depois de ter tentado (quase) tudo – a avó recusou levá-lo a uma igreja, mas chegou a pagar 80 mil francos (93 euros) por um tratamento que não fez efeito -, Judikael ingressou num dos centros de tratamento de Gregoire e foi diagnosticado com esquizofrenia. Agora, quase um ano depois, toma um comprimido diário e uma injeção mensal no centro como paciente externo, e está a aprender a costurar.

Embora os sinais sejam positivos, Gregoire sabe que há muito por fazer - é por isso que, para além de aceitar doentes e de os tirar das ruas quando são abandonados pelas famílias, faz questão de viajar pelo Oeste de África, à procura de relatos de doentes maltratados em vilas e aldeias próximas. "No terceiro milénio, não consigo aceitar que ainda haja pessoas acorrentadas. A minha luta é mudar isso".