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Aden invadida por combatentes à espera de um despojo de guerra

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Getty

Apesar de ter sido reconquistada há mais de seis meses, a cidade do Iémen continua tomada de assalto por milhares de combatentes de diversas fações, à espera de um despojo de guerra. Ocupam edifícios públicos e privados e não querem partir sem receber algo em troca. Muitos só chegaram depois dos combates terem chegado ao fim

Seis meses depois de ter sido reconquistada às milícias xiitas pelas forças governamentais apoiadas por uma coligação internacional liderada pela Arábia Saudita, Aden continua mergulhada no caos e a única coisa que parece funcionar é o fornecimento de energia elétrica.

Numa reportagem publicada esta quinta-feira no site do “The Guardian”, o jornalista Ghaith Abdul-Ahad descreve um ambiente sinistro com edifícios, públicos e privados, tomados pelos militares que combateram pela libertação da cidade até agosto do ano passado, numa operação apresentada pelos sauditas como o maior sucesso até ao momento na guerra civil iemenita.

O repórter lembra a luta travada pelo governador desta cidade portuária, general Jaafar Saad – morto em dezembro num atentado à bomba reclamado pelo autoproclamado Estado Islâmico (Daesh) – para reabrir o aeroporto.

“Se abrir o aeroporto consigo fazer com que as organizações não-governamentais regressem, com que as empresas voltem a investir e os hotéis voltem a funcionar mostrando ao mundo que Aden é um lugar seguro”, disse o general ao jornalista do “The Guardian”.

“Temos tudo. Só precisamos de estabilidade”, acrescentava Jaafar Saad poucos dias antes de morrer, juntamente com cinco guarda-costas, quando uma carrinha de vidros escurecidos explodiu à passagem da caravana em que seguia.

O sonho de fazer de Aden uma nova Dubai contrasta profundamente com a dura realidade de uma cidade controlada, nas melhores estimativas, por mais de 50 mil combatentes, muitos dos quais só terão reclamado esse estatuto depois da cidade ter sido libertada, convictos de que seriam brindados com algum despojo de guerra.

Entre os que garantem ter combatido, estará Ali, um antigo mecânico na Arábia Saudita, que ao jornalista do jornal britânico garantiu ter-se alistado em março do ano passado, logo no início da guerra.

“Vivi os melhores dias da minha vida durante a guerra [que continuam noutras paragens]. Não tínhamos dinheiro, nem munições. Era simples: todos sabíamos quem eram os inimigos e os amigos”, contou Ali. E lamentou que, apesar dos combates terem terminado em agosto, ainda não haja uma polícia nem um Estado de direito.

No vazio, este antigo combatente é por estes dias juiz, chefe da polícia e líder tribal, constata o repórter. E já passaram quatro meses desde de que pagou cerca de 50 euros aos homens por quem é responsável. Há dias, um homem de negócios deu-lhe dinheiro para poder comprar comida.

Milícias xiitas 'huthis', apoiadas pelo Irão, lançaram em setembro de 2014 uma ofensiva contra as forças leais ao Presidente Abd Rabbo Mansur Hadi e, apesar de algumas perdas, continuam a controlar grande parte do país, incluindo a capital Sanaa. A Arábia Saudita envolveu-se no conflito a partir de março, formando com outros oito regimes sunitas uma coligação internacional para apoiar as forças governamentais.

Segundo o Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos, até dezembro de 2015 pelo menos 2795 civis tinham morrido e 5324 ficado feridos neste conflito.