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Sarkozy de novo travado pela Justiça. Há um português no centro do caso

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JACKY NAEGELEN / Reuters

Antigo Presidente francês é acusado de “financiamento ilegal de campanha eleitoral” e vê a sua recandidatura ao Eliseu comprometida. Guy Alves, filho de emigrantes portugueses, tramou-o e confirmou aos juízes a falsificação de faturas

Nicolas Sarkozy volta a viver um autêntico calvário com a Justiça francesa e vê comprometida a sua recandidatura às presidenciais da primavera de 2017. Esta terça-feira, o antigo Presidente foi interrogado durante 12 horas nas instalações da Brigada Financeira e saiu de lá acusado pelos juízes de “financiamento ilegal” da sua campanha eleitoral de 2012, que então perdeu para o atual chefe de Estado François Hollande.

Trata-se de um duro golpe para Sarkozy, que disputa as primárias do partido “Os Republicanos” [nova designação da União para um Movimento Popular, UMP, de direita], contra seis outros candidatos, entre eles o antigo primeiro-ministro Alain Juppé, largamente favorito nas sondagens.

No novo caso, o antigo chefe de Estado francês é acusado de ter validado (e assinado) as despesas da sua campanha eleitoral, sabendo que se tratava de contas com valores falsificados. Terá gasto o dobro dos limites legais para a campanha, que eram de 22,5 milhões de euros. Pelo menos, mais de metade terá na realidade sido paga pela UMP e não pela sua candidatura.

De chefe de gabinete a inimigo da UMP

As contas não corresponderão à verdade das despesas, como confirmou à Justiça um tesoureiro da campanha eleitoral sarkozysta e, sobretudo, Guy Alves, filho de emigrantes portugueses e patrão da Bygmalion, empresa de comunicação e organização de eventos que na altura trabalhava para Sarkozy, a UMP e para diversos municípios dirigidos pela direita.

O lusodescendente, formado em grandes escolas francesas – designadamente no Instituto de Ciências Políticas de Paris –, faz parte da dezena de acusados neste caso mas, segundo fontes contactadas pelo Expresso, “não suportou” que alguns dirigentes da UMP e da campanha eleitoral de Sarkozy tenham, numa primeira fase, dito aos juízes que teria sido a Bygmalion e ele próprio, pessoalmente, a enriquecer com as faturas falsas no valor de cerca de 20 milhões de euros.

Guy Alves, que ganhava na época 10 mil euros de salário na sua empresa, revelou aos juízes que estabeleceu as faturas em nome da UMP a pedido dos dirigentes sarkozystas, porque “eles ameaçavam não pagar por terem ultrapassado em muito o limite legal das despesas do candidato”.

“Foi a UMP que pediu para endereçar as faturas para o partido e eu fiz isso porque precisava do dinheiro para pagar a fornecedores e diversas empresas que trabalhavam então connosco”, terá dito aos juízes, segundo fontes seguras contactadas esta quarta-feira pelo Expresso.

Devido a este caso, Guy Alves, quarentão, casado e pai de um rapaz de 13 anos, diz ter perdido todos os seus clientes da UMP e “já não ter amigos na política”. Antes de ter fundado a Bygmalion, em 2008, o lusodescendente enveredara por uma carreira política, tendo sido designadamente chefe de gabinete do ministro do Orçamento Jean-François Copé, seu velho amigo que posteriormente chegaria a presidente da UMP. Foi exatamente durante a presidência de Copé no partido que este escândalo de faturas falsas se verificou, em 2012.

Hoje, Guy é considerado “uma peste” no partido agora chefiado por Nicolas Sarkozy. O próprio Copé, que é “testemunha assistida” neste caso e deixou de ser seu amigo, é candidato nas primárias de “Os Republicanos” ao Eliseu.

O filho de emigrantes portugueses confessou aos juízes ter efetuado as falsificações e denunciou todas as pessoas com quem esteve em contacto neste caso, sobretudo as que o acusavam de ter feito as faturas para seu enriquecimento pessoal.

“Fiz as faturas fictícias a pedido da UMP e da direção da campanha de Sarkozy ,porque precisava de dinheiro para pagar encomendas e as pessoas que contratava, muitas vezes à última hora. Era muito dinheiro e a Bygmalion podia falir se eles não pagassem, estava com a corda na garganta”, terá dito aos investigadores.

Até ao momento, de acordo com informações recolhidas pelo Expresso, a Justiça francesa não encontrou rasto do seu alegado enriquecimento pessoal e pretende sobretudo esclarecer quem, na UMP e na estrutura da campanha presidencial de Nicolas Sarkozy, estava a par do sistema de falsificação das contas.

Os juízes suspeitam que o antigo Presidente sabia dos desmesurados montantes gastos durante a sua campanha eleitoral. Por isso o acusaram esta terça-feira à noite, comprometendo fortemente as suas hipóteses de vir a ser designado candidato da direita às presidenciais e de voltar ao Eliseu.